Pietra acorda, não com o rosto inchado, comum nos sonolentos, mas com um
rosto vazio. Mais um dia começa. Mais um tormento tem início. Ninguém,
por mais sábio que fosse, saberia responder como ela suportava tudo
aquilo.
Depois de levantar, Pietra olhava a claridade do sol passar pelos vidros
de sua janela. Aquela era a única luz que existia em sua vida. A única
que iluminava seu corpo. Às vezes, tomava uns goles de água. Nas outras,
se contentava em somente se levantar. Lavava o rosto, aparentemente
cada vez mais abatido, via seus olhos no espelho, mas não via seu
reflexo, pois já não havia mais brilho neles, apesar da pouca idade que
tinha. Comia algo que a mantinha em pé por algumas horas e saía para
caminhar, sem destino certo e sem saber o que iria acontecer após o
próximo passo.
Pietra não tinha emprego, mas passava pouco tempo em casa. Um morador de
rua, homem que passava dia e noite fazendo o papel de vizinho
desconhecido de Pietra e que mantinha sua residência improvisada ao lado
da casa da jovem, sempre a via sair, normalmente pela manhã, e somente a
avistava de novo quando retornava, já no final da tarde. Pietra voltava
para casa somente para comer alguma coisa, mas nunca demorou mais que
alguns minutos. Logo após, saía novamente, no início da noite, e voltava
somente pouco antes da alvorada. O humilde vizinho, apesar de sua
condição e de sua baixa instrução, já havia notado que o rosto da moça
não era como os outros. O dela era especialmente tranquilo, como se não
houvesse nada por trás dele. Sem emoções, sem desejos, sem sequer um
raio de vida. Era só um rosto. Um rosto como nenhum outro.
Pietra andava lentamente durante suas idas e vindas pela cidade. As
pessoas pensariam que era devido ao estresse e o cansaço causados por
uma rotina de trabalho e estudos, mas ninguém sabia que ela não tinha
emprego, muito menos que não estudava. O motivo de Pietra andar a passos
lentos era de que não havia um lugar aonde ela quisesse chegar. Não
havia um objetivo a alcançar. Nada havia nada que a fizesse correr, que a
fizesse querer viver.
Nesse dia, que parecia pior que os outros, que parecia mais insuportável
que os outros anos de sua vida, Pietra parecia um corpo vivo, mas que
perdera a vida. O morador de rua percebeu tudo isso quando a viu pela
manhã. Ele notou que Pietra havia saído mais cedo do que o normal. Com a
mesma roupa de sempre, com o mesmo cabelo bagunçado de sempre, com os
mesmos passos lentos de sempre, ela partiu. Mas hoje ela sabia o que ia
acontecer e isso dava a ela uma tranquilidade nunca antes sentida.
Depois de alguns dias sem retornar, ele ouviu alguns vizinhos comentando
de que ela devia ter ido para a casa de algum familiar, mas sabia que
não era verdade. Pietra encontrou seu caminho. Ela tinha ido acabar com
sua dor.
Foi a última vez que o humilde morador viu a moça. Em um papel escrito
por Pietra, encontrado no chão de sua casa, lia-se: "Está tudo bem
agora".
Eu, Álison