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sábado, 16 de agosto de 2014

Deveria pensar primeiro

Portanto, cada um deveria preocupar-se unicamente em formular juízos verdadeiros. Para isto, deveria pensar primeiro e falar depois. Mas, na maioria das pessoas, à vaidade inata associa-se a verborragia e uma inata deslealdade.
 






Eu, Álison

domingo, 10 de agosto de 2014

A perversidade é que é natural

Para Aristóteles, "o homem tem, por natureza, o desejo de conhecer" e é naturalmente inclinado à verdade, só cedendo ao erro por acidente ou privação. Para Schopenhauer, ao contrário, a perversidade é que é natural ao gênero humano, e não só a perversidade moral, mas também a perversidade cognitiva que leva a preferir o erro à verdade.






Eu, Álison

sábado, 19 de abril de 2014

Destruir o real

De fato, em Roma e na Grécia, foi quando a sociedade se sentiu gravemente atingida que surgiram as teorias pessimistas de Epícuro e Zenão. A formação desses grandes sistemas é pois índice de que essas corrente pessimista chegou a certo grau de intensidade anormal, devido a alguma perturbação do organismo social. Ora, é sabido como esses sistemas se multiplicaram modernamente. Para se ter uma justa noção do número e importância deles não basta considerar as filosofias que têm oficialmente esse caráter, como as de Schopenhauer, Hartmann e outros. Deve-se também considerar todas as que, sob nomes diferentes, procedem de um mesmo espírito. O anarquista, o esteticista, o místico, o socialista revolucionário, se não perdem a esperança no futuro, como o pessimista, concordam pelo menos num mesmo sentimento de ódio ou aversão pelo estado de coisas vigente, e na necessidade de destruir o real ou esquivar-se dele.






Eu, Álison

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Sobre o Sofrimento

O sentido mais próximo e imediato de nossa vida é o sofrimento, e se não fosse assim, nossa existência seria o maior dos contra sensos, pois é um absurdo imaginar que a dor infinita, que nasce da necessidade essencial à vida, da qual o mundo está pleno, é meramente acidental ou sem sentido. Nossa receptividade para a dor é quase infinita, mas o mesmo não ocorre com nossa receptividade para o prazer, que tem limites estreitos. É a infelicidade em geral que é a regra, embora a infelicidade individual apareça como exceção.

Pois nestes bons tempos não sabemos que infelicidade precisamente agora o destino está nos preparando: doença, perseguição, empobrecimento, mutilação, cegueira, loucura, morte, etc.

Mas, no que concerne aos homens, esse sentimento é um verdadeiro tormento, em especial naquela multidão deplorável daqueles que só pensam em encher o bolso, mas nunca a cabeça, e para os quais precisamente a própria abastança se torna um castigo, por deixá-los à mercê te um tédio mortificante, do qual, para fugir, ora se apressam, ora se arrastam, ora se transferem de um lugar para outro, para, no instante mesmo em que se encontram no novo local, procurar saber a respeito dos recursos deste, do mesmo modo que faria uma pessoa em dificuldades, com relação aos possíveis meios para sair desta má situação.

"Não és meus dono, mas meu demônio, fazendo um inferno a minha curta existência".

Não obstante, ainda sim, todos querem para si uma vida prolongada; por conseguinte aspiram a um estado em que a situação é: "Hoje está mal, amanhã será pior, até que sobrevenha o mal definitivo".

Pois o mundo constitui o inferno, e os homens dividem-se em dois grupos: de um lado ficam os atormentados, e do outro, os demônios.

Porém, não dá para admitir, em absoluto, um tal deus Jeová, que por vontade própria e livremente cria este mundo da necessidade e da miséria, e a seguir congratula-se a si mesmo, dizendo que todas as coisas são belas.

Contudo, opondo-se a uma tal concepção do mundo enquanto a bem sucedida obra de um ser onisciente, clamam demasiadamente forte a miséria (de que o mundo está repleto), e a evidente imperfeição, se não burlesca distorção, daquele que seria o mais perfeito de seus fenômenos, qual seja, o humano, e aqui reside uma dissonância inconciliável. Ao contrário, tanto a miséria quanto a imperfeição confirmam de modo preciso a nossa posição, comprovando-a quando concebemos o mundo como obra de nossa culpa.

O homem tem tantas e tão grandes misérias que, se não fosse incompatível com a religião cristã, ousaria dizer que, se os demônios existem, eles mesmos expiam as penas do crime, transmigrando para os corpos dos homens.

A bela alma, então, da mesma forma que o gênio, por vezes deve se sentir ali como um nobre prisioneiro político, mantido nas galeras, entre criminosos comuns; por essa razão, procurarão, como estes últimos, isolar-se.

Deveríamos ser tolerantes com qualquer tipo de estupidez, falha e vício, pensando que o que está diante de nós é tão somente nossa própria estupidez, falha e vício, já que esses são os erros da humanidade, na qual também nos incluímos, e consequentemente temos também todas as falhas, até mesmo aquelas que nos causam indignação, apenas porque, neste momento, não as manifestamos.







Eu, Álison

sábado, 14 de dezembro de 2013

Metafisica do Amor

Já na troca dos olhares cheios de desejos se ilumina uma vida nova, anuncia-se a individualidade futura, criação completa e harmoniosa. Aspiram a uma união afetiva, a uma fusão em único ser; o ser que vão gerar será o prolongamento da sua existência, a plenitude, e nele as qualidades hereditárias dos pais unidas em um único ser, continuam a viver.

Quando o amor é dirigido a um único ser e atinge grau muito elevado de intensidade, se não puder ser satisfeito, todos os bens do mundo e a própria vida perdem o valor. É uma paixão de uma força inigualável, que não para diante de nenhum sacrifício, e se não conseguir se realizar, pode levar à loucura ou ao suicídio.

Só a espécie tem vida infinita e só ela é capaz de desejos, satisfações e dores infinitos. Mas estes estão encerrados no estreito peito de um mortal - portanto, não é de espantar que ele pareça despedaçar e não conseguir exprimir o pressentimento da delícia ou dor infinitas que o invade.
É justamente essa a fonte de toda poesia erótica de gênero elevado, que eleva-se em metáforas transcendentes que pairam muito acima das coisas terrenas.

Do mesmo modo, a perda da amada, para a morte ou um rival, é também sentida pelo amante enamorado como uma dor maior que todas as outras, precisamente porque é uma dor de natureza transcendente, visto que o atinge não apenas como indivíduo, mas em sua essentia aeterna, na vida da espécie, em cuja vontade e missão ele estava encarregado de realizar.

Essa missão que a vontade, zelando pelos interesses da espécie, impõe ao enamorado, apresenta-se à consciência deste sob a máscara de uma infinita bem aventurança, que seria alcançada na união com a mulher amada. Nos graus supremos da paixão, essa quimera é tão radiante que, se não puder ser realizada, a própria vida perde todo o encanto e torna-se tão isenta de alegria e insípida, que o desgosto causado por ela supera até mesmo o medo da morte; por isso, às vezes, um infeliz põe fim voluntariamente a seus dias.

O indivíduo é, aí, uma vaso por demais frágil para conter o desejo infinito da vontade da espécie concentrada em um objeto determinado. Não tem, então, outra saída senão o suicídio e, por vezes, até o duplo suicídio de ambos os amantes.







Eu, Álison

domingo, 8 de dezembro de 2013

Da Morte

Wilhelm Gwiner, outro dos raros amigos do filósofo, deixou uma descrição de Schopenhauer por meio da qual nos foi possível conhecer um pouco do caráter desse grande pensador. Disse Gwiner que "Jamais existiu um homem que tenha se sentido tão só como Schopenhauer. Um anacoreta é um ser sociável comparado a ele, pois o isolamento do primeiro se deve a motivos práticos, ao passo que para Schopenhauer o isolamento era resultado do conhecimento".

Se o que faz a morte nos parecer tão assustadora fosse a ideia do não-ser, então deveríamos experimentar o mesmo temor diante do tempo em que ainda não éramos. Pois é incontestável que o não-ser do depois da morte não pode ser diferente daquele anterior ao nascimento; ele não merece, portanto, ser mais lamentado. Toda uma infinidade de tempo fluiu quando ainda não éramos, mas isso não nos aflige de modo algum. Mas, ao contrário, o fato de que após o intermédio momentâneo de uma existência efêmera uma segunda infinidade de tempo deva se seguir, no qual não seremos mais, para nós parece uma dura e até mesmo intolerável condição. Deveria essa sede de existência, então, ter-se originado do fato de que nós a saboreamos e a achamos preferível a todos os outros bens? Com certeza, não; acima isso já foi explicado brevemente: a experiência feita poderia muito bem ter despertado em nós uma aspiração infinita pelo paraíso perdido do não-ser. Também uma esperança de uma imortalidade da alma vem sempre ligada à de um mundo melhor, prova de que nosso mundo presente não vale muita coisa.

Para todos os que, no curso de sua existência ou de seus esforços, deparam com obstáculos intransponíveis, para todos os que sofrem de doenças incuráveis ou desgostos inconsoláveis, existe um derradeiro refúgio, que muitas vezes se oferece por si mesmo: o retorno ao seio da natureza, de onde eles emergiram por um instante, atraídos pela esperança de condições mais favoráveis de existência do que as lá encontradas; eles tornam a pegar o mesmo caminho, que lhes permanece aberto.

Assim, à concepção puramente empírica, mas objetiva e imparcial, de uma tal ordem das coisas, deve-se seguir o pensamento de que essa disposição é apenas um fenômeno superficial, e que esses incessantes nascimentos e mortes de forma alguma concernem à raiz das coisas; eles não são mais que uma maneira de ser relativa, e que a existência íntima e sempre misteriosa de cada coisa, furtando-se por toda parte do nosso olhar, não é atingida, mas antes se mantém ao abrigo de todo nosso ataque.

Tolos são os que, carecendo de pensamento amplo,
Presumem que possa nascer o que nunca foi,
Ou que possa perecer e tornar-se nada no todo.
Ao sábio tal coisa nunca ocorrerá,
De que enquanto vivemos (isso que se designa vida),
Somente por certo tempo temos o bom e o ruim,
E de que, antes do nascimento e depois da morte, somos um nada.

 "Não pertenço a ninguém, e pertenço a todo mundo: vós lá estivestes antes de entrar, vós lá estareis ainda, quando de lá sairdes".

 Isso se confirma pela fato de que a maioria dos homens - e para falar a verdade, todos os homens mesmo - são feitos de tal modo que ele não podem ser felizes, em qualquer mundo em que sejam transportados. Pois, se nesse outro mundo fossem excluídas as necessidades e a fadiga, eles cairiam sob o peso do tédio, e se o tédio fosse evitado, recairiam na necessidade, tormentos e sofrimentos.

 Ora, após ter uma consciência individual acabado pela morte, seria então desejável que essa luz extinta fosse reacesa, para continuar a brilhar até o infinito? O conteúdo desse consciência não é, na sua maior parte, nada senão uma torrente de pensamentos mesquinhos, terrenos, miseráveis e de preocupações intermináveis: deixai-a em paz!

Daí se explica por que o nosso próprio ser é para nós, isto é, justamente para nosso intelecto, um verdadeiro enigma, e por que o indivíduo se vê como nascido de novo e perecível, embora sua essência verdadeira seja independente do tempo e, por conseguinte, eterna.






 Eu, Álison

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Apenas de tormentos

É uma verdade incrível como a existência da maior parte dos homens é insignificantes e destituída de interesse, vista exteriormente, e como é surda e obscura sentida interiormente. Consta apenas de tormentos, aspirações impossíveis; é o andar cambaleante de um homem que sonha através das quatro épocas da vida, até a morte, com um cortejo de pensamentos triviais. Os homens assemelham-se a relógios a que se dá corda e trabalham sem saber a razão. E sempre que um vem a este mundo, o relógio da vida humana recebe corda novamente, para repetir, mais uma vez, o velho e gasto estribilho da eterna caixa de música, frase por frase, com variações imperceptíveis.


Quando a ponta do véu de Maia (a ilusão da vida individual) se ergue diante dos olhos de um homem, de tal modo que já não faz diferença egoísta entre si mesmo e o restante dos homens, e interessa-se pelos sofrimentos dos outros como pelos próprios, tornando-se assim caritativo até à dedicação, pronto para sacrificar-se pela salvação de seus semelhantes, esse homem, chegado assim ao ponto de se reconhecer a si mesmo em todos os seres, considera como os seus sofrimentos infinitos de tudo quando vive, e apodera-se, dessa forma, da dor do mundo. Nenhuma miséria lhe é indiferente, todos os tormentos que vê e tão raramente lhe é dado amenizar, todas as angústias de que ouve falar, inclusive aquelas que lhe é possível conceber, perturbam-lhe o espírito como se fosse ele a vítima.
Insensível às alternativas de bens e de males que lhe sucedem em seu destino, livre de todo o egoísmo, penetra os véus da ilusão individual; tudo quanto vive, tudo quanto sofre, está igualmente junto de seu coração. Imagina o conjunto das coisas, a sua essência, a sua eterna passagem, os esforços vãos, as lutas íntimas, e os sofrimentos intermináveis; para qualquer lado que se volte, vê o homem que sofre. o animal que sofre, e um mundo que se desvanece eternamente. E une-se tão estritamente às dores do mundo como o egoísta a si mesmo. Como poderia ele, com tão grande conhecimento do mundo, afirmar com desejos incessantes a sua vontade de vida, e prender-se cada vez mais estritamente à vida?








Eu, Álison

domingo, 15 de setembro de 2013

Espero que não

"A morte é a única forma de escapar ao sofrimento inerente à vida" - Arthur Schopenhauer 







Eu, Álison

sábado, 17 de agosto de 2013

Sobre aquilo que todo mundo vê


No momento em que se alegrar em si mesmo, toda a existência se alegra em si. Terá, então, alcançado a sintonia com a dança harmoniosa que acontece ao seu redor. Só o homem se desfez em pedaços, e o motivo por que se desfez tem que ver com o fato de querer ser especial. Se quiser ser especial, terá de aceitar algum tipo de loucura.






Eu, Álison

sábado, 10 de agosto de 2013

Se sente mal sozinho?



Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é. — Arthur Schopenhauer







Eu, Álison

É um dom desconfortável

Percepção é uma ferramenta que aponta para os dois extremos.









Eu, Álison

sábado, 13 de julho de 2013

Para escapar

“Os melhores geralmente morrem por suas próprias mãos apenas para escapar e aqueles que ficam pra trás nunca conseguem compreender por que alguém iria querer escapar deles.” — Charles Bukowski







Eu, Álison

domingo, 16 de junho de 2013

Nessa jornada

Porque ele parte nessa jornada solitária para descobrir a solução para o sofrimento e descobrir como se deve viver, o que é uma coisa infinitamente mais importante do que as posses mundanas ou a companhia daqueles que amamos.







Eu, Álison

domingo, 17 de março de 2013

Independência para o Amor

Sempre hesitei em falar sobre o Amor porque acho um assunto muito complicado, mas achei esse texto, que foi retirado da edição n° 76 da revista Filosofia, Ciência e Vida. Achei interessante porque ela mostra uma visão diferente do que se considera Amor, bem próximo do que eu acredito ser o correto. O título é "Amor e relacionamento versus Felicidade".


Estar solteiro nunca foi um fato social bem aceito. E na modernidade, são cada vez mais constantes as queixas sobre a solidão. Mas estar só não seria uma opção viável e saudável? Para Schopenhauer, a autossuficiência é condição essencial para uma vida feliz.

Tema de grande repercussão social na atualidade, os relacionamentos mostram-se cada vez mais complexos por fugirem de um modelo outrora descrito. Acompanhado da fragilidade pós moderna em todos os âmbitos da sociedade, os relacionamentos são mais uma questão a trazer angustia para indivíduos esvaziados e que vão buscar em um parceiro um alento para satisfazer suas frustrações. Mas que não sabem mais como se relacionar. As discussões desse artigo se baseiam nas ideias de Arthur Schopenhauer, que diz que a felicidade vem de uma forma de vida autossuficiente e de André Comte-Sponville, que diz que mesmo o amor a dois deve ser solitário. Então, será que estar sozinho não pode ser uma questão de opção, uma escolha? Não existe um meio termo entre um relacionamento ortodoxo e um estilo de vida hedonista conhecido como “vida de solteiro?”.

Não estar acompanhado de um parceiro parece estranho aos olhos da sociedade. Isso pode se dever ao fato de inúmeros exemplos em nosso cotidiano, seja no cinema, em letras de músicas, no senso comum ou nas obras de autoajuda, em que proliferam abordagens simplórias sobre o amor e que alimentam ainda mais as frustrações dos relacionamentos por oferecer visões distorcidas e incentivar um relacionamento romântico e raso sobre o tema.

Algumas obras do cinema podem nos servir de exemplos. Em Amor a Toda Prova, parece ao espectador atento que o ser humano tem apensa duas opções: achar um amor verdadeiro, um parceiro ideal, e se entregar a um relacionamento tão comprometido quanto sério, ou viver na “farra”, dentro daquela rotina vulgarmente absorvida na pós modernidade, normal para a existência de solteiro. No mundo real, no subconsciente de boa parte das pessoas, sobretudo dos jovens, percebe-se claramente a epidemia desse mero polarizar de possibilidades na área aqui abordada: ou se está namorando, ou é hora de “viver para valer” a rotina “livre” de desimpedido (a). 

Schopenhauer definiu o Amor como manifestação de um desejo inconsciente de perpetuar a espécie. Pois conscientemente ninguém suportaria carregar o fardo pesado da "vontade de vida" (nome que ele deu ao desejo de perpetuar a espécie). Para ele, todas as juras de amor não passam de um artifício natural para garantir a sobrevivência da espécie. Por isso, o Amor romântico é uma invenção cristã.
Cabe a reflexão: fora da dualidade "amor a dois" e "vida de solteiro", hedonista com relações efêmeras, não há outros caminhos? A solidão não é uma possibilidade?

O universo dos manuais de autoajuda, com sua sede em responder perguntas de maneira “objetiva”, pela utilização de máximas que normalmente possuem, como um de seus erros principais, a generalização, a carência da contextualização das diferenças que existem entre os exemplares da nossa espécie, e, mesmo quando, sob algum ponto de vista, sorrateiras, frequentemente decisivas, também afasta-se bastante da verdade. Biologia, Fisiologia, Cultura, acontecimentos, bagagem pessoal, a ligação intrincada de cada um desses elementos que tornam cada um o que é, acabam sendo negligenciados em detrimento da procura de uma aparente solução, exprimível em um conselho de fácil digestão, quando na realidade nós, humanos, usualmente – e principalmente em áreas tão complicadas como essa -, não somos máquinas para termos nossos problemas resolvidos com uma fórmula, imperativa, mandatória, que ignora as individualidades, as idiossincrasias e mostra-se excessivamente rasteira, sem trazer para o debate outras possibilidades, sem fazer perguntas, sem abrir o leque para as devidas relativizações e ponderações. 

De maneira geral, essas manifestações e obras culturais citadas, além dos equívocos e defeitos arrolados, fogem dos conceitos de sabedoria propostos pelos grandes filósofos, por pensadores e intelectuais clássicos. Ademais, depois dessa reflexão, cabem algumas perguntas: fora da dualidade “amor a dois” e “vida de solteiro, hedonista, relações efêmeras, despidas de qualquer vínculo”, não há outros caminhos? A solidão não é uma possibilidade? Calma, tempo para si, contemplação... Relacionamentos distintos, com outros contornos, não seriam válidos? E as diferenças de cada um, não devem ser melhor contextualizadas antes da divulgação de preconceitos que supostamente valem para todos? Para completar, se, verdadeiramente, escolhas sobre relacionamentos, o mundo exterior, a forma de se vincular a ele, têm sua relevância, não se negligencia erroneamente nossas características internas, biológicas, fisiológicas? E nossas tendências, vícios, que pairam no âmago, na psique? Nossa melhor adaptação a certo tipo de caminho, relação, cotidiano, e, por que não, nossa predisposição à felicidade, em termos essencialmente internos? Sabe aquela coisa do sujeito infeliz em um lugar, que pinta como firmamento outro diferente, e, quando ele passa a habitar, leva consigo toda a infelicidade, toda a melancolia? Uma analogia disso vale em vários aspectos, e poderia se estender a diversos campos da vida. 

O interno, espécie de autossuficiência, a tranquilidade, e a volta para o ser são as chaves para chegar à felicidade, segundo Schopenhauer.

O refúgio na Arte como “salvação” 

Ao lado de boa dose de autossuficiência e abnegação, Schopenhauer também defendia o refúgio na Arte como uma estratégia útil para a aproximação de uma vida mais feliz. A fruição nas obras artísticas genuínas seria capaz de trazer o “desligamento” da vontade por alguns instantes, de afastar dos tumultos de desejos por ela ocasionado, proporcionando a chamada apreciação desinteressada, um período de calmaria. A companhia das grandes mentes, de eminentes pensadores, ou melhor, de suas ideias, por meio de seus livros e produções diversas, era exaltada pelo alemão como um triunfo na procura de uma existência superior. Nessa esteira, se a limitação intelectual, para o filosofo, possuía vantagens – por, entre outros motivos, diminuir os estímulos para a vontade -, a inclinação para apreciar o oficio do gênio poderia ser um beneficio. 
Flaubert, prodígio em seu realismo de mestre, em historias que mostram como as circunstâncias exteriores são capazes de frustrar os sonhos, e que escancaram o fracasso de homens que, frequentemente donos de temperamentos românticos, têm a mania de buscar o inacessível, também conclui: diante desse cenário obscuro, da costumeira austeridade do real, a melhor seria “o desprezo pelas tentações do mundo e o refúgio na Arte”. 

O solteiro, normalmente, não é socialmente bem aceito. Por isso, até inconscientemente, as pessoas buscam freneticamente um parceiro para se relacionar, mesmo que isso não as façam se sentir verdadeiramente completas.

Abnegação e autossuficiência como escolha

Em toda a sua obra, a visão de Arthur Schopenhauer (1788-1860) sobre o que seria a sabedoria foge, basicamente, tanto da busca pelo prazer, da afirmação da vontade – supostamente contemplada numa existência inflamada e, normalmente, apenas no discurso, livre -, quanto da procura pela felicidade que dependeria decididamente de um amor, de um laço com o outro. O interno, uma espécie de autossuficiência, a tranquilidade, e a volta para o ser são as chaves para o filosofo alemão. Em Parerga e Paralipomena, ou em Aforismo, para a sabedoria de vida, essas concepções se apresentam latentes, sobretudo quando o pensador analisa as maneiras de tornar a existência melhor, mais agradável e feliz. 

Segundo ele, a maior de todas as maravilhas não seria sagrar-se conquistador do mundo, do amado (a), de posses. Tornar-se dominador de si próprio – algo que apenas um seletíssimo grupo é capaz de atingir: essa sim seria a vitória suprema. 

Já no livro O mundo como vontade e representação, Schopenhauer define o conceito de vontade, fundamental para a compreensão de seu sistema: uma força metafisica que atinge, está presente em todos os seres, rege o mundo e controla o homem, que não é, assim, guiado pela razão. Nessa linha, “nós não queremos uma coisa porque encontramos motivo para ela, encontramos motivos para ela porque a queremos”. O intelecto, em geral, trabalharia para a vontade, seria um escravo dela. Daí resultaria a dificuldade exorbitante de se possuir considerável domínio sobre si mesmo. 

O casamento ainda é uma cobrança imposta pela sociedade, algo como um passo natural a ser dado na vida das pessoas e, por isso, torna-se uma obsessão caso não o seja concretizado.

Na filosofia de Schopenhauer, a sabedoria passa, primordialmente, por nos livrarmos da ditadura imposta pela vontade, tentando controlar da melhor forma, e o máximo possível, os desejos e impulsos dela advindos. Diante dessas teses, fica claro não somente a incompatibilidade destas com a procura pela realização, pela felicidade, por meio de uma vida fortemente atrelada à busca de conquistas amorosas, sexuais, ou das meras relações efêmeras tidas usualmente como típicas, naturais à vida de solteiro; enxergamos também que o ideal de amor perpetuado pelo cinema, nos moldes já descritos, no qual muitas vezes nossa “salvação” depende dessa completude do outro, “de algum outro”, em uma alta relação de dependência, não era defendido, por Schopenhauer, como ponto importante e efetivo no alcance de uma existência melhor. Afinal, nos contornos apresentados pelos filmes em geral, ele também estaria excessivamente entrelaçado a desejos e inquietações que fogem do simples voltar-se para si e, uma última análise, não seria parte de um processo de renúncia, de abdicação da procura efetiva “do lado de fora”. 


André Comte-Sponville sobre relacionamentos: “Há casais fiéis e outros não. Pelo menos se entendermos por fidelidade, nesse sentido restrito, o uso exclusivo do corpo do outro. Por que só amaríamos uma pessoa? Por que só desejaríamos uma pessoa? Ser fiel a suas ideias não é ter só uma ideia; nem ser fiel em Amizade supõe que tenhamos um só amigo. Fidelidade, nesses domínios, não é exclusividade. Por que deveria ser diferente no Amor?”. 

A procura de parceiro pela internet virou uma modalidade nova em nosso universo social, e o aumento de sites dessa espécie representa a solidão na sociedade pós moderna. 

Abnegação, resignação, desapego: palavras centrais para a compreensão correta do que é exaltado por Schopenhauer. Influenciado pelo Budismo, pela Filosofia Oriental e, de certa forma, pelo Cristianismo, que teve vários de seus mandamentos e ensinamentos interpretados por ele como sendo espécies de alegorias da negação de vontade, tudo na obra schopenhaueriana, no que concerne à sabedoria, ao que seria mais frutífero para o interior da espécie humana, é repleto, esparge, lança ao ar, direta ou indiretamente, a procura pela tranquilidade, por algum tipo de desligamento, pelo aniquilamento, dentro do possível, de impulsos, desejos. 

Para Schopenhauer, qualquer desejo, seja o de relacionamentos efêmeros ou o de laços duradouros, nasce da falta, e, quando é concretizado perde o seu valor.

Tratando de amor, especificamente, ele defendia que, em função da vontade, ambicionamos preservar a espécie. O amor, nessa esteira, seria uma ilusão: “Nenhuma união é tão infeliz quanto esses casamentos por amor – e precisamente pelo fato de que o seu objetivo é a perpetuação da espécie, e não o prazer do indivíduo”. “Só um filósofo pode ser feliz no casamento, e os filósofos não casam”. O verdadeiro mote, por trás da vontade de reproduzir, seria, em suma, a preservação da espécie, e para isso, “cada qual procura um companheiro que vá neutralizar seus defeitos, para que esses não sejam transmitidos”. 

Em sintonia com todos esses pontos, há de se lembrar que, para o pensador alemão, qualquer desejo, não excluído seja o de relacionamentos efêmeros, de satisfazer impulsos imediatamente, ou o da edificação de laços mais duradouros, nasce da falta, e, a partir do momento no qual é concretizado, perde o seu valor. “(...) a vida oscila, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento para o aborrecimento: estes são os dois elementos de que ela é feita, em suma”. A falta geraria dor e desejo; este, na medida em que é alcançado, não satisfaria de modo consistente, duradouro, dando lugar ao tédio que, para Schopenhauer, é ainda pior para o homem do que o estado de ansiedade e sofrimento de falta, quando se quer algo que não se possui. “E a realização nunca satisfaz; nada é tão fatal para um ideal do que a sua realização”. E, além disso, “A paixão satisfeita leva com mais frequência à infelicidade do que à felicidade. Porque suas exigências muitas vezes conflitam tanto com o bem estar pessoal do interessado, que o prejudicam”. Nessa última passagem nota-se que não apenas a fugacidade dos louros colhidos com o atingir de um objetivo aparece como argumento contra a busca dele. O próprio processo de esforço par tal, em que frequentemente temos nosso “bem estar” ferido, surge como ponto ser observado, como diligencia, digamos, com pouco “custo-benefício”. 

Se a companhia de um ente querido, de um parceiro, não é direta e expressamente despida de qualquer valor para Schopenhauer, no seu pensamento, enxergamo-nos em um posicionamento totalmente distante – difícil conceber separação, incompatibilidade maiores... – e em incontáveis acepções, oposto aos disseminados, expressos no senso comum, no ramo da autoajuda, no Cinema em geral. O amor, não apenas pelo fato de ser visto como uma máscara criada pelo desejo de preservar a espécie, no sentido decantado, na sétima arte, nas ruas (...) é desmistificado, até por ser colocado, de determinada maneira, nesses espaços, como salvação, como fonte direta para a felicidade, sem a contextualização devida do papel da autossuficiência e de outras complexidades. 

A procura por saciar o desejo por relações transitórias, em si, também é questionada; entretanto, não só ela: o próprio estado espiritual e corporal que a acompanha aparece como natural nesse tipo de existência, “ansiosa, demasiadamente acesa”, repleta de estímulos; todo o aparato (consumo, trabalho, atrelados à vivência de um papel enxergado como o de sucesso, o “correto”) para projetarmos determinada imagem encarnarmos certo “tipo”, foge do avaliado por Schopenhauer. 

Schopenhauer, em suas obras, foge da ideia de que a felicidade só viria se complementada na união com outra pessoa.

Ainda que não concorde com o pautar de uma teoria em qualquer concepção metafisica, e a despeito de exageros, simplismos, generalizações e erros que Schopenhauer, de fato, também comete, é inegável o acerto, o beneficio ao trazer para o plano da felicidade, da existência, a importância que pode possuir boa dose de abnegação, de desligamento, de volta para si, arrancando o foco excessivamente ancorado no que se adquire, se atrela ao mundo exterior, e naquilo que esquiva, pouco perpassa pela importância de nós mesmos, de nossa disposição interna, biológica, fisiológica, do que em nós foi influenciado pela cultura. Interessante também notar a diferença de um sistema filosófico clássico com o que se difunde hoje. E se recordarmos que Schopenhauer não foi exatamente um precursor, em variados aspectos, e que, essencialmente em sua linha de pensamento possui convergências decisivas – em pontos nos quais esses autores e escolas a seguir listados justamente também discordam do que está sendo tratado nesse artigo como comumente espalhado na atualidade – com Platão, Kant, Budismo, filosofias orientais diversas (...), fica mais latente a carência de sintonia, a oposição do que se vê na contemporaneidade como correto e/ou comportamento adotado, às vezes indiretamente apoiado, com distintas concepções clássicas. 

Com a clareza peculiar ao texto schopenhaueriano, concluo com trecho de uma de suas máximas que, talvez, apresenta oposição mais flagrante ao que se alastra por aí, na atualidade: “Bastar-se a si mesmo; ser em tudo para si, e poder dizer ‘trago todas as minhas posses comigo’ (cf. Cícero, Paradoxa, I, I, 8, e Sêneca, Epistulae, IX, 18) é decerto a qualidade mais favorável para a nossa felicidade. Sendo assim, nunca é demais repetir a máxima de Aristóteles: ‘A felicidade pertence àqueles que bastam a si mesmos’ (Ét a Eud., 7, 2)”.

André Comte-Sponville preconiza que o amor, em sua mais pura verdade, é solidão. Pode ser considerado como duas solidões se completando.

Amor à Solidão 

Dizer que existem muitas falhas em abordagens sobre o amor, as quais corriqueiramente vendem um ideal demasiadamente “inocente”, pueril, sonhador, fincado em versões, em potencias reflexos ainda que amenizados e recauchutados, da escola romântica, e/ou se perdem no simplismo, no reducionismo, por não se entrelaçarem com a complexidade humana e das coisas, dos acontecimentos, entre outras claudicações e distanciamentos da realidade, não é desprezar o valor que esse sentimento e a vida a dois pode ter. Nada perto disso. Também sequer aproxima-se de uma preterição, de uma desvalorização do impacto sensacional, positivo, que a companhia certa chega a ter na errante existência de nós mortais, ao dizer-se que boa dose de autossuficiência é indispensável para a beatitude, para a felicidade, que acaba dependendo unicamente de nós, como indivíduos. 

André Comte-Sponville (1952) é certeiro, no seu Amor à Solidão, ao defender que devemos aceitar o outro como tal, ou seja, como outro, alguém diferente, e não como apêndices de nós mesmos, um instrumento pessoal que funciona de acordo com nosso belo prazer. “E é nisso que o amor, em sua verdade, é solidão”. Afinal para o pensador, o nobre sentimento não seria nada mais do que duas solidões se complementando, se protegendo, que se limitam e se inclinam diante da outra. “O amor não é o contrário da solidão. É solidão compartilhada, habitada, iluminada – e, às vezes, ensombrecida – pela solidão do outro. O amor é a solidão sempre; não que toda solidão seja amante, longe disso, mas porque todo amor é solitário. Ninguém pode amar em nosso lugar, nem em nós, nem como nós”. 




Eu, Álison

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Fachos de luz

Pois só pode merecer o nome de gênio alguém que assume como tema de suas realizações a totalidade, aquilo que é grandioso, as coisas essenciais e gerais, e não alguém que dedica os esforços de sua vida a esclarecer qualquer relação científica de objetos entre si.

Os eruditos são aqueles que leram coisas nos livros, mas os pensadores, os gênios, os fachos de luz e promotores da espécie humana são aqueles que as leram diretamente no livro do mundo.

No reino da realidade, por mais bela, feliz e graciosa que ela possa ser, nós nos movemos sempre sob a influência da gravidade, força que precisamos superar incessantemente. Em compensação, no reino dos pensamentos, somos espíritos incorpóreos, sem gravidade e sem necessidade. Por isso não existe felicidade maior na Terra do que aquela que um espírito belo e produtivo encontra em si mesmo nos momentos felizes.

É sempre um erro querer transferir para a literatura a tolerância que na sociedade é preciso ter com as pessoas estúpidas e descerebradas que se encontram por todo lado.

Também vemos todo pensador autêntico se esforçar para dar a seus pensamentos a expressão mais pura, clara, segura e concisa possível. Consequentemente, a simplicidade sempre foi uma marca não só da verdade, mas também do gênio.

Além de tudo, os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos.

Isso explica por que é possível ler livros de pessoas em cuja companhia não encontramos nenhuma satisfação, e também é por esse motivo que a cultura espiritual elevada nos leva gradativamente a encontrar prazer apenas nos livros, não mais nos homens.

É por isso que a primeira geralmente é angustiante, mesmo terrível: medo, necessidade, engano e assassinatos horríveis, em massa. A outra, em contrapartida, é agradável e jovial, assim como o intelecto isolado, mesmo quando descreve erros e descaminhos.

Assim, o autor poria diante dos nossos olhos aquela interminável batalha travada pelo que é bom e autêntico, em todos os tempos e países, contra o domínio do que é deturpado e ruim; descreveria o martírio de quase todos os verdadeiros iluminados da humanidade, de quase todos os grandes mestres em cada disciplina e em cada arte; mostraria como eles, com poucas exceções, sofreram na pobreza e na miséria, sem reconhecimento, sem apreço, sem alunos, enquanto a fama, a honra e a riqueza eram reservadas aos indignos em cada área.

Trechos de "A Arte de Escrever", de Arthur Schopenhauer



Eu, Álison

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Espíritos excepcionais

A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. - Arthur Schopenhauer


Pessoas visivelmente diferentes da maioria estão fadadas a não ter muitas pessoas ao seu redor, já que somente uma minoria consegue entendê-las.







Eu, Álison