Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos.
Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou! — Ludwig van Beethoven, Testamento de Heilingenstadt, 6 de Outubro de 1802.
Não tem mais graça ouvir as outras músicas... Depois de ouvir Beethoven. Esse é o 4º movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven e é chamada "Ode à Alegria" (Ode é uma composição feita em homenagem a alguém). Não é possível entender como uma pessoa que, nessa época, já estava quase surda, pode criar algo tão incrível. Ele teve que compor para diversos instrumentos diferentes (mais de 10), escrever toda a letra e dividi-la entre o quarteto e o coro, organizar os tempos de cada instrumentos e de cada voz (que algumas vezes cantam simultaneamente partes diferentes da letra), tantos detalhes, tantos, tantos! Você pode me dizer que todos os maestros de música erudita compõem dessa forma, e está certo, mas não são todos, pelo contrário, são pouquíssimos, que criam algo há quase 200 anos atrás com esse nível e que são considerados como exemplo de grandeza. É realmente notável. Parabéns Beethoven e obrigado por ter-nos deixado obras como essa que suavizam a aspereza da vida.
Oh Freunde, nicht diese Töne!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen
und freudenvollere!
Freude, schöner Götterfunken,
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken.
Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Deine Zauber binden wieder Was die Mode streng geteilt; Alle Menschen werden Brüder Wo dein sanfter Flügel weilt.
Wem der grosse Wurf gelungen
Eines Freundes Freund zu sein,
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund.
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund
Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur;
Alle Guten, alle Bösen,
Folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!
Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels prächt'gen Plan,
Laufet, Brüder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen.
Freude, schöner Götterfunken, Tochter aus Elysium, Wir betreten feuertrunken. Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder Was die Mode streng geteilt; Alle Menschen werden Brüder Wo dein sanfter Flügel weilt.
Deine Zauber binden wieder Was die Mode streng geteilt; Alle Menschen werden Brüder Wo dein sanfter Flügel weilt.
Seid umschlungen, Millionen. Dieser Kuss der ganzen Welt!
Seid umschlungen, Millionen. Dieser Kuss der ganzen Welt! Brüder! Über'm Sternenzelt Muss ein lieber Vater wohnen.
Brüder! Über'm Sternenzelt Muss ein lieber Vater wohnen.
Ihr stürzt nieder, Millionen? Ahnest du den Schöpfer, Welt? Such ihn über'm Sternenzelt! Über Sternen muss er wohnen.
Über Sternen muss er wohnen.
Seid umschlungen, Millionen. Dieser Kuss der ganzen Welt!
Seid umschlungen, Millionen. Dieser Kuss der ganzen Welt!
Ihr stürzt nieder, Millionen? Ahnest du den Schöpfer, Welt? Such ihn über'm Sternenzelt! Über Sternen muss er wohnen.
Freude, tochter aus Elysium,
Freude, tochter aus Elysium,
Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder Wo dein sanfter Flügel weilt.
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Seid umschlungen, Dieser Kuss der ganzen Welt! Brüder! Über'm Sternenzelt Muss ein lieber Vater wohnen.
Seid umschlungen, Dieser Kuss der ganzen Welt!
Freude, schöner Götterfunken, Tochter aus Elysium, Freude, schöner Götterfunken! Götterfunken!
Oh amigos, não esses tons! Entoemos algo mais prazeroso e mais alegre!
Alegre, formosa centelha divina, filha do Elíseo. Ébrios de fogo entramos em teu santuário celeste! Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém.
Quem já conseguiu a maior fortuna de ser amigo de um amigo. Quem já conquistou uma mulher amável junte-se a nossa alegria! Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma, uma única em todo o mundo. Mas aquele que falhou nisso deve rastejar chorosamente e ir embora em lágrimas e sozinho! Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma, uma única em todo o mundo. Mas aquele que falhou nisso deve rastejar chorosamente e ir embora em lágrimas e sozinho!
Todos os seres bebam da alegria no seio da Natureza. Todos os bons, todos os maus, seguem seu rastro de rosas. Ela nos deu beijos e vinho e um amigo leal até a morte. Deu prazer para com a vida até aos humildes e ao querubim que se ergue diante de Deus! Ela nos deu beijos e vinho e um amigo leal até a morte. Deu prazer para com a vida até aos humildes e ao querubim que se ergue diante de Deus!
Alegremente, como seus sóis correm através do esplêndido espaço celeste. Se expressem, irmãos, em seus caminhos, alegremente como o herói diante da vitória. Alegre, formosa centelha divina, filha do Elíseo. Ébrios de fogo entramos em teu santuário celeste! Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo!Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado. Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado. Milhões se prostram diante Dele? Mundo, você percebe seu Criador? Procure-o no mais alto do céu estrelado! Sobre as estrelas onde Ele mora, Sobre as estrelas onde Ele mora. Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Milhões se prostram diante Dele? Mundo, você percebe seu Criador? Procure-o mais acima do céu estrelado! Sobre as estrelas onde Ele mora.
Alegre, filha do Elíseo. Alegre, filha do Elíseo.
Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Abracem-se! Este beijo é para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado.Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Alegria, formosa centelha divina, filha do Elíseo. Alegria, formosa centelha divina! Centelha divina!
Era um estímulo para os alunos, esse azougado professor. Nunca se sabia o que esperar dele.
Como todos os homens de personalidade vigorosa, tinha os seus preconceitos. “Sempre desconfiei das palavras e obras do espírito humano”.
E assim, “Wullie Tamson” – como o chamavam seus amigos escoceses – tornou-se o primeiro Barão Kelvin. Mas “Wullie Tamson” continuou a ser o mesmo homem honesto, franco, enérgico e brincalhão.
Um dia seus amigos levaram-no a ouvir uma sinfonia de Beethoven. Ficou muito impressionado. “Pense-se que coisa complexa é o resultado de uma orquestra a tocar”.
“Os que vivem devagar criam seus próprios obstáculos”.
E agora ele se aproximava do fim do caminho. De hora em diante se limitaria a aprender. E então o mais sábio dos mestres, a Morte, veio buscar esse aluno em seu octogésimo terceiro ano e conduziu-o ao Grande Laboratório para o Último Experimento.
Manifestou-se-lhe cedo, embora não precocemente, o talento musical.
Nem bem eram decorridos dois anos quando, sem nenhum treino metódico, começou ele a expressar-se numa linguagem musical própria. Rejeitando a influência dos clássicos, entrou a formar um novo idioma, uma interpretação individual das nórdicas paisagens com a espuma dos mares, as suas florestas e as suas montanhas. De tal arte se absorvia Sibelius na música e nos sonhos que prestava pouquíssima atenção às aulas do colégio.
No refúgio do seu quarto, contudo, compunha a seu belo prazer, utilizando-se do estilo e dos métodos próprios.
“Eu não podia resistir à impressão de ser um escavador desenterrar esqueletos do passado”. Sibelius estava destinado a tornar-se um dos grandes paradoxos da música moderna.
O seu amor à natureza – ou para expressá-lo em seu sentido mais lato, o seu amor à vida – era nele uma religião. A música é apenas um dos espelhos que refletem a vida.
O compositor cometeu toda a sua vida espiritual ao julgamento da própria alma. Não se deixava influenciar pelos valores convencionais alheios, especialmente pelos dos críticos profissionais que se propunham a estimar o infinito da arte através do finito dos seus óculos.
As suas lutas era mentais e não materiais. “Dir-se-ia um pensamento nascido debaixo de um céu enfarruscado forcejando, lentamente, por alcançar regiões mais puras”.
Quando alguém proclamava, aos berros, seu amor a outrem, não faz outra coisa senão por em praça seu amor a si mesmo. Sibelius não acreditava na demonstração vulgar de emoção. A harmonia do controle é tão necessária nos tons da orquestra como nos sentimentos do coração humano.
Existe amiúde um grande abismo – diz Sibelius – entre os temas ideais que atravessam o cérebro do compositor e os sons audíveis que chegam aos ouvidos dos frequentadores de concertos em sua forma final. “Há na música, como na vida, toda a sorte de obstáculos à expressão efetiva das nossas ideias”.
Nunca foi a melancolia da vida mais sincera ou mais graficamente expressada. Ninguém mais, entretanto, teria sido capaz de entendê-la, pois trata-se de uma expressão pessoal profunda e única pertencente a um mundo próprio – um mundo que nenhuma outra composição musical pôde jamais penetrar. É a casta criação de um gênio austero e retrata a força inquieta de um destino esmagador.
Principiara a vacilar a fé que possuíam muitos homens voltados para as coisas do espírito. Sibelius já atingira em sua música as profundezas do pessimismo. Mesmo antes da guerra impressionara-o profundamente o espetáculo da desumanidade do homem em relação ao homem.
Sibelius encerrou sua série de sinfonias no número mágico – sete. E nessas sete sinfonias demonstrou uma versatilidade somente igualada por Beethoven.
Como no caso de Beethoven e Shakespeare, surpreendemo-nos a fazer a seguinte pergunta: “Pode um espírito humano abranger tamanha diversidade de pensamento?”.
“Ninguém suponha que a composição se torna mais fácil com o passar dos anos quando o compositor leva a sério sua arte. Quanto mais velho o artista, maiores as exigências que faz a si mesmo... A gente vive a topar com problemas novos”.
Era um corpinho enfermiço, etéreo e apaixonado, que se diria delicado demais para uma criança mortal.
Quando os Liszt chegaram à capital da Áustria (em 1821), Franz contava apenas dez anos de idade, embora já tocasse com a técnica e emoção de um virtuoso adulto.
“Você deve agradecer à sua estrela”. “Nunca vi, em toda a minha vida, talento igual para a memorização”.
Ele senta ao piano. Entreolharam-se, pasmados, os membros da orquestra. “Mas esse menino é tão bom quanto Mozart!”.
Foi para todos uma grande surpresa encontrar Beethoven lá, pois, ao receber o ingresso para o concerto, lançara-o de si, resmoneando: “Estou farto de crianças prodígio”. Todavia, lá estava ele, imóvel na sua cadeira, os lábios muito apertados. Claro está que não lhe era possível ouvir uma única nota, pois já a esse tempo a sua surdez era praticamente completa. Não obstante, continuou a fitar os olhos na criança, impassível, o cenho carregado, distante como um deus. Terminado o concerto, abeirou-se da plataforma, tomou Franz entre os braços de urso e disse-lhe, beijando-o a testa: “Meu filho, você ainda será, um dia, um verdadeiro músico”. Esse elogio de Beethoven foi uma das mais queridas recordações da infância.
Que dedos quentes e palpitantes, que olhos ardentes e perturbadores! Já em sua infância sentia Franz que, depois da sua música, o sorriso de uma mulher bonita era a coisa mais irresistível do mundo.
Conseguiu, entretanto, tornar-se aluno de Paer e continuou, debaixo da orientação deste último, o meteórico progresso em direção ao pináculo do virtuosismo contemporâneo.
No momento, contudo, em que as suas mãos roçaram o piano, transformou-se. Já não era uma criança que tocava, mas a própria encarnação do Espírito da Música.
Nunca foi criança alguma dotada de tamanho gênio. Nunca houve criança alguma tão sequiosa por brincar.
Tentativas de suicídio. Tensões de ordenar-se. Leitura de livros amargos de Byron e Voltaire. Uma longa e crítica enfermidade. Depois, emergiu Liszt como o favorito fascinador, brilhante, temerário, cínico e irresistível dos salões franceses.
O homem mais elegante de Paris, e o maior pianista do mundo, foi pintado, modelado e elogiado pelos principais artistas, escultores e poetas.
A orquídea de seu gênio crescia ao influxo dos aplausos. Orquídea de deslumbrante beleza como raramente havia visto o mundo. O seu virtuosismo artístico e mental seduzia não só as mulheres mais encantadoras senão também os homens mais brilhantes de Paris. Era um jovem deus irrequieto esse músico sempre em busca de novos triunfos, esse amante sempre à cata de novas aventuras.
Ocorreu, por fim, uma aventura que lhe trouxe uma taça de vinho de múltiplos sabores – excitamento, romance, paixão, alegria, desilusão e sofrimento. Mas não lhe trouxe a paz. Porque não pertencia ao tempestuoso temperamento de Franz Liszt experimentar jamais as bênçãos da paz.
Heine asseverara-lhe que tal conquista seria impossível, visto que ela trazia encerrado o coração em diversas polegadas de gelo.
Não lhe sobrava tempo, entretanto, para os sonhos maiores da sua imaginação, pois gastava-o todo com Wagner, o obscuro titã cujas visões pairavam acima da compreensão das massas.
Havia agora em sua execução uma nota nova – a nota do sofrimento, do desafio, da rebelião contra as pompas vãs do mundo.
Ele era apenas um estorvo para os netos, para a filha, para si mesmo. Nada mais lhe restava senão esperar pacientemente pela morte. Era tarde demais. Morria. Mas as contas afinal, não estavam tão más assim. Porque, ao cerrarem-se-lhe os olhos, Cósima apertava a mão entre as dela.
Não me é dado encontrar recreação na sociedade dos homens, numa conversação requintada, na recíproca permuta de ideias e sentimentos... Devo viver como exilado. Mais um pouco, e eu teria dado cabo da minha vida. Logo, porém, desistiu da ideia da morte. Ele tinha algo por que viver – a sua arte. “A arte apenas me susteve... Esvaziei a taça de amargo sofrimento... Este se transformará em beleza dentro da minha alma...”.
“Em memória de um grande homem” – um homem cujo corpo ainda vivia, mas cuja alma já morrera.
O cinismo de Beethoven aumentou com os anos. Para muitos dos seus contemporâneos ele não era um gênio, senão um excêntrico. Mostrava-se rabugento diante dos amigos, arremessava livros contra os criados e insultava os benfeitores. “O que sois, vós o deveis ao acaso e ao nascimento. O que sou, devo-o a mim mesmo. Já ouve e haverá ainda milhares de príncipes. No entanto, existe apenas um só Beethoven”.
Mas era a impetuosidade e o fogo de um vulcão, das grandes forças da própria Natureza, pois havia nele um Titã. Sem embargo, essa fúria exterior ocultava um coração delicado.
As suas amizades, entretanto, representavam mero incidente em sua vida. Era a música a única paixão que o possuía. A criação na soledade. “Vivo só, mas não me aflijo por isso, pois sei que Deus esta mais perto de mim que dos outros”.
E, em todos os casos, música de cunho único, original e divino, forjada no metal puro da fantasia de Beethoven. A música de Beethoven interpretando as ideias de Deus.
A história da luta do Homem contra o Destino e da vitória do Homem guiado pelo céu. É o poema épico da peregrinação do Homem do Sofrimento para a sabedoria, da sabedoria para a coragem, da coragem para a esperança e desta para a vida eterna.
Um dos grandes acontecimentos na vida de Beethoven foi o seu encontro com Goethe. Foi aí que o poeta dos sons veio a conhecer o poeta das palavras. “É a joia mais preciosa da nossa terra”. Davam, todavia, longos passeios, cada qual absorto nas próprias ideias – dois artistas supremos a traduzir o mistério do mundo em linguagens diversas.
É uma diferença de princípios, profundo desencontro no que concerne aos valores reais da vida. Para Goethe, a realeza era mais importante que o gênio. Para Beethoven, o gênio era mais importante que a realeza.
A surdez não foi um acidente nem uma tragédia. Foi o amanho do solo para o florejar do gênio.
Jazia Beethoven em seu leito de morte. Estava, naquele momento, inconsciente. Fora rugia terrífica tempestade. De repente, o fuzilar de um relâmpago. Depois, tornou a cair para trás, morto.
Bach foi o matemático da música; Mozart, o poeta; Beethoven, o filósofo. No jardim do espírito humano é a semente da filosofia a única que floresce.
Não lhe era fácil tarefa atender aos mínimos pormenores do governo da casa, pois grandes pensamentos principiavam a agitar-se dentro dele. Aborrecido com o destino e preocupado com a saúde, tornou-se amargo, sarcástico, mal humorado.
Possuíam-no acessos violentíssimos de raiva e acometimentos igualmente violentos de remorsos.
Possuía especial habilidade em fazer amigos a despeito do gênio fogoso e da língua mordaz. Os outros admiravam-lhe o espírito puro, indômito e rebelde, o absoluto desprezo das delicadezas excessivas diante das realidades da vida. A figura atlética, atarracada e rude e o espírito teimoso, positivo e incapaz de transigências exerciam poderosa fascinação. “Ainda bem”, disse um amigo depois da visita de Beethoven à corte, “que você conhece a etiqueta apropriada em presença da nobreza”. Ao que Beethoven replicou: “Pois você devia dizer: ainda bem que a nobreza conhece a etiqueta em presença do gênio”.
“A felicidade”, dizia ele “não foi feita para mim; ou melhor, eu não fui feito para a felicidade”. O seu gênio precisava de solidão para desenvolver-se. Solidão e sofrimento. “Não vim ao mundo para levar uma vida agradável, mas para realizar uma grande obra”. Retirou-se da sociedade e tornou à casca de eremita da sua rebeldia e da sua rudeza.
O temperamento de Beethoven era explosivo, arrogante – e triste. Quem sente intensamente, sofre intensamente. Um instrumento afinado com a beleza é sensível à dor. A mesma sensibilidade nervosa que lhe proporcionava o gênio proporcionava-lhe também a infelicidade.
Beethoven aspirava a realizar-se a si próprio. Ouvir-lhe-iam a música e quedariam maravilhados diante do novo gigante criativo que assomava ao horizonte.
“Acreditarão, acaso, que posso pensar em um miserável violino quando converso com o espírito?”
De conforme com seu temperamento ardente, Beethoven estava sempre se apaixonando por esta ou aquela mulher. Beethoven, certo, não era o tipo de homem destinado a conquistar o coração feminino.
Surdez e romance nunca se deram muito bem. As palavras ternas de afeto hão de ser murmuradas, e não pronunciadas aos gritos. As mulheres que rodeavam Beethoven admiravam-no, compadeciam-se dele, chegavam, às vezes, a adorá-lo; nunca, porém, o amaram.
E essas senhoras ansiavam por ouvir e aplaudir Beethoven, embora não ansiassem a flertar com ele. Não se flerta com um deus.
Havia algo de estranho naquele homem atarracado que costumava passear pelas ruas de Viena, por volta de 1820. Parecia estar sempre ausente, distante do mundo que o rodeava. Sem rumo certo, ora caminhava mais depressa, ora se detinha por longos momentos, com expressões de perplexidade.
Esses passos conduziam-no aos verdes arredores da cidade, onde encontrava paz e inspiração. Como todos os solitários, esse homem de cabeleira revolta amava a natureza com toda a alma.
Os curiosos que se voltavam para observá-lo não o perturbavam. Alheio a tudo, seguia seu caminho murmurando consigo mesmo e, às vezes cantando alto com voz grave e rouca, enquanto com as mãos, regia uma orquestra invisível.
As pessoas julgavam-no louco. Não percebiam que era surdo, e - menos ainda - imaginavam que se tratava de um gênio: Ludwig van Beethoven.