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sábado, 14 de junho de 2014

Centelha divina

Acho que essa é a música favorita de Deus.


Não tem mais graça ouvir as outras músicas... Depois de ouvir Beethoven. Esse é o 4º movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven e é chamada "Ode à Alegria" (Ode é uma composição feita em homenagem a alguém). Não é possível entender como uma pessoa que, nessa época, já estava quase surda, pode criar algo tão incrível. Ele teve que compor para diversos instrumentos diferentes (mais de 10), escrever toda a letra e dividi-la entre o quarteto e o coro, organizar os tempos de cada instrumentos e de cada voz (que algumas vezes cantam simultaneamente partes diferentes da letra), tantos detalhes, tantos, tantos! Você pode me dizer que todos os maestros de música erudita compõem dessa forma, e está certo, mas não são todos, pelo contrário, são pouquíssimos, que criam algo há quase 200 anos atrás com esse nível e que são considerados como exemplo de grandeza. É realmente notável. Parabéns Beethoven e obrigado por ter-nos deixado obras como essa que suavizam a aspereza da vida.

Oh Freunde, nicht diese Töne!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen
und freudenvollere!

Freude, schöner Götterfunken,
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken.
Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder 
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.

Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.


Wem der grosse Wurf gelungen
Eines Freundes Freund zu sein,
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund.

Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund


Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur;
Alle Guten, alle Bösen,
Folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!

Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!


Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels prächt'gen Plan,
Laufet, Brüder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen.

Freude, schöner Götterfunken,
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken.
Himmlische, dein Heiligtum!


 Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.


Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.


Seid umschlungen, Millionen.
Dieser Kuss der ganzen Welt!

Seid umschlungen, Millionen.
Dieser Kuss der ganzen Welt!
Brüder! Über'm Sternenzelt
Muss ein lieber Vater wohnen.


Brüder! Über'm Sternenzelt
Muss ein lieber Vater wohnen.


Ihr stürzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schöpfer, Welt?
Such ihn über'm Sternenzelt!
Über Sternen muss er wohnen.


Über Sternen muss er wohnen.

Seid umschlungen, Millionen.
Dieser Kuss der ganzen Welt!


Seid umschlungen, Millionen.
Dieser Kuss der ganzen Welt!


Ihr stürzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schöpfer, Welt?
Such ihn über'm Sternenzelt!
Über Sternen muss er wohnen.


Freude, tochter aus Elysium,
Freude, tochter aus Elysium,

Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;

Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.


Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.

Seid umschlungen,
Dieser Kuss der ganzen Welt!
Brüder! Über'm Sternenzelt
Muss ein lieber Vater wohnen.


Seid umschlungen,
Dieser Kuss der ganzen Welt!
 

Freude, schöner Götterfunken,
Tochter aus Elysium,

Freude, schöner Götterfunken!
Götterfunken!

Oh amigos, não esses tons! Entoemos algo mais prazeroso e mais alegre!
Alegre, formosa centelha divina, filha do Elíseo. Ébrios de fogo entramos em teu santuário celeste! Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém.
Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém.

Quem já conseguiu a maior fortuna de ser amigo de um amigo. Quem já conquistou uma mulher amável junte-se a nossa alegria! Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma, uma única em todo o mundo. Mas aquele que falhou nisso deve rastejar chorosamente e ir embora em lágrimas e sozinho!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma, uma única em todo o mundo. Mas aquele que falhou nisso deve rastejar chorosamente e ir embora em lágrimas e sozinho!
Todos os seres bebam da alegria no seio da Natureza. Todos os bons, todos os maus, seguem seu rastro de rosas. Ela nos deu beijos e vinho e um amigo leal até a morte. Deu prazer para com a vida até aos humildes e ao querubim que se ergue diante de Deus!
Ela nos deu beijos e vinho e um amigo leal até a morte. Deu prazer para com a vida até aos humildes e ao querubim que se ergue diante de Deus! 
Alegremente, como seus sóis correm através do esplêndido espaço celeste. Se expressem, irmãos, em seus caminhos, alegremente como o herói diante da vitória.
Alegre, formosa centelha divina, filha do Elíseo. Ébrios de fogo entramos em teu santuário celeste! Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém.
Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém.
Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado.
Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado.
Milhões se prostram diante Dele? Mundo, você percebe seu Criador? Procure-o no mais alto do céu estrelado! Sobre as estrelas onde Ele mora,
Sobre as estrelas onde Ele mora.
Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo!
Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo!
Milhões se prostram diante Dele? Mundo, você percebe seu Criador? Procure-o mais acima do céu estrelado! Sobre as estrelas onde Ele mora.
Alegre, filha do Elíseo. Alegre, filha do Elíseo.
Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém.
Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém.
Abracem-se! Este beijo é para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado. Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo!
Alegria, formosa centelha divina, filha do Elíseo.
Alegria, formosa centelha divina! Centelha divina!



 
Eu, Álison

terça-feira, 17 de julho de 2012

F. Liszt

Era um corpinho enfermiço, etéreo e apaixonado, que se diria delicado demais para uma criança mortal.
Quando os Liszt chegaram à capital da Áustria (em 1821), Franz contava apenas dez anos de idade, embora já tocasse com a técnica e emoção de um virtuoso adulto.
“Você deve agradecer à sua estrela”. “Nunca vi, em toda a minha vida, talento igual para a memorização”.
Ele senta ao piano. Entreolharam-se, pasmados, os membros da orquestra. “Mas esse menino é tão bom quanto Mozart!”.
Foi para todos uma grande surpresa encontrar Beethoven lá, pois, ao receber o ingresso para o concerto, lançara-o de si, resmoneando: “Estou farto de crianças prodígio”. Todavia, lá estava ele, imóvel na sua cadeira, os lábios muito apertados. Claro está que não lhe era possível ouvir uma única nota, pois já a esse tempo a sua surdez era praticamente completa. Não obstante, continuou a fitar os olhos na criança, impassível, o cenho carregado, distante como um deus. Terminado o concerto, abeirou-se da plataforma, tomou Franz entre os braços de urso e disse-lhe, beijando-o a testa: “Meu filho, você ainda será, um dia, um verdadeiro músico”. Esse elogio de Beethoven foi uma das mais queridas recordações da infância.
Que dedos quentes e palpitantes, que olhos ardentes e perturbadores! Já em sua infância sentia Franz que, depois da sua música, o sorriso de uma mulher bonita era a coisa mais irresistível do mundo.
Conseguiu, entretanto, tornar-se aluno de Paer e continuou, debaixo da orientação deste último, o meteórico progresso em direção ao pináculo do virtuosismo contemporâneo.
No momento, contudo, em que as suas mãos roçaram o piano, transformou-se. Já não era uma criança que tocava, mas a própria encarnação do Espírito da Música.
Nunca foi criança alguma dotada de tamanho gênio. Nunca houve criança alguma tão sequiosa por brincar.
Tentativas de suicídio. Tensões de ordenar-se. Leitura de livros amargos de Byron e Voltaire. Uma longa e crítica enfermidade. Depois, emergiu Liszt como o favorito fascinador, brilhante, temerário, cínico e irresistível dos salões franceses.
O homem mais elegante de Paris, e o maior pianista do mundo, foi pintado, modelado e elogiado pelos principais artistas, escultores e poetas.
A orquídea de seu gênio crescia ao influxo dos aplausos. Orquídea de deslumbrante beleza como raramente havia visto o mundo. O seu virtuosismo artístico e mental seduzia não só as mulheres mais encantadoras senão também os homens mais brilhantes de Paris. Era um jovem deus irrequieto esse músico sempre em busca de novos triunfos, esse amante sempre à cata de novas aventuras.
Ocorreu, por fim, uma aventura que lhe trouxe uma taça de vinho de múltiplos sabores – excitamento, romance, paixão, alegria, desilusão e sofrimento. Mas não lhe trouxe a paz. Porque não pertencia ao tempestuoso temperamento de Franz Liszt experimentar jamais as bênçãos da paz.
Heine asseverara-lhe que tal conquista seria impossível, visto que ela trazia encerrado o coração em diversas polegadas de gelo.
Não lhe sobrava tempo, entretanto, para os sonhos maiores da sua imaginação, pois gastava-o todo com Wagner, o obscuro titã cujas visões pairavam acima da compreensão das massas.
Havia agora em sua execução uma nota nova – a nota do sofrimento, do desafio, da rebelião contra as pompas vãs do mundo.
Ele era apenas um estorvo para os netos, para a filha, para si mesmo. Nada mais lhe restava senão esperar pacientemente pela morte. Era tarde demais. Morria. Mas as contas afinal, não estavam tão más assim. Porque, ao cerrarem-se-lhe os olhos, Cósima apertava a mão entre as dela.





Eu, Álison

segunda-feira, 16 de julho de 2012

R. Schumann

Um duplo talento despertara nele prematuramente – um dom para a literatura e um dom para a música.
Surpreendera o olhar da amada num arco-íris lunar e imaginou ouvir-lhe o riso da brisa ao dançar sobre um lago perdido entre as montanhas. "Nesse momento aprendi a ideia sublime da Divindade".
Robert voltava-se amiudadas vezes para o teclado quando sentimentos profundos demais para lágrimas – e palavras – se lhe agitavam no cérebro.
Era sujeito a intensos acessos de melancolia. Escreveu à mãe, referindo-lhe as suas desventuras, num estilo calculado para apertar-lhe o coração. “Se eu, ao menos, tivesse aqui alguém que me compreendesse direito e com simpatia e que tudo fizesse por mim em virtude de um amor puro e desinteressado que me dedicasse!”.
“Emociono-me com demasiada facilidade”, queixava-se ele.
“Nem posso matar-me, a despeito do meu desespero, porque me falta o dinheiro suficiente para adquirir uma pistola”.
Eram os seus dias uma série de estados de espírito que flutuavam violentamente entre o êxtase e o desespero.
Além disso, repartira o tempo entre a música e a poesia. Expressava-se igualmente bem com o piano e com a pena, o que, aliás, representava para ele, de certa maneira, uma fonte de fraqueza. “Se ao menos o meu talento para a poesia e para a música se concentrasse num ponto único, a luz não se ofuscaria tanto assim...”.
Na amizade do gênio o prato da familiaridade é condimentado com o sal do respeito.
“Sentimentos estranhos agitavam-me o coração...”. “Permiti que essa noite, ao menos, se passe sem que eu perca a razão!”
Nessa altura, Schumann desfaleceu. Durante toda a vida obcecara-o a ideia de que estava perdendo a razão. Referia-se ao “lado obscuro” da sua vida, manifestava o desejo de divulgar, algum dia, o segredo de uma “grave enfermidade psíquica” de que padecera. Um dia, ele teria a “chave” de todas as suas ações, “de toda a minha estranha natureza”.
“Poderá o jovem Schumann edificar uma catedral de ideias musicais?”.
Essa infâmia abateu a natureza sensitiva de Schumann.
Schumann não era homem com quem se lidasse facilmente. Era distraído, sem cerimonioso, arrebatado, irresoluto e caprichoso com o vento. Inclinado à melancolia, acreditava que o casamento o curaria dos seus periódicos acessos de tristeza.
Referia-se, repetidamente, à sua boa fortuna de possuir “uma esposa à qual estou ligado pela arte, pela afinidade mental, pelo hábito de muitos anos de amizade e pelo mais profundo e mais sagrado amor...”.
O meu respeito pelo gênio de Robert, pela sua inteligência e pelos seus dons de compositor aumenta com cada uma de suas obras.
Padecia, continuamente, de acessos de melancolia e fazia viagens frequentes ao campo para tratar da saúde. Com os nervos tensos e a ponto de arrebentar, tinha medo da morte e tinha medo da vida.
Para Schumann, porém, valia o oferecimento como escápula temporária às algemas do desespero.
Era um homem de poderosas emoções e dificuldade de expressão. “Quando os meus pensamentos são mais eloquentes”, lamentava-se, “é quando me vejo mais incapacitado de falar”.
Excesso de gênio, carência de talento. Tal era o paradoxo daquele homem, que padecia da excitabilidade nervosa provocada por um cérebro demasiado fértil. Essa excitabilidade nervosa trouxe-lhe, de um lado, o fardo das aflições e, de outro, o condão de cantar.
Pouco depois, decompunham-se as notas num milhar de sons majestosos. Que maravilha! Brilhavam-lhe nos olhos visões do paraíso. “Sofro maravilhosamente”.
Uma bela manhã, saltou da cama dizendo que os anjos lhe estavam cantando um tema que ele precisava copiar. Saiu depois impetuosamente de casa e precipitou-se no Reno. Foi salvo e mandado para um hospício.
Tal foi a tragédia de seu espírito. O artista hipersensitivo vivera uma vida de frustração mental. Não poderia ser feliz o final dessa historia de um gênio tão poderoso com tão limitadas oportunidades de expressão, vulcão ativo de música peado pelas cinzas de um mundo desatento. Havia, forçosamente, de explodir.
Durante dois anos arrastou-se ele no meio dessa morte viva. Vivia num mundo de música divina – aquelas harmonias celestiais que lhe roubavam o repouso.
A luz do sol é apenas uma lembrança irrisória na treva da tormenta.
No instante, porém, em que ela se ergueu, ele a beijou. O beijo instintivo, confiante e indefeso de uma criancinha.





Eu, Álison

sábado, 14 de julho de 2012

F. F. Chopin

Era uma "criança aluada, pálida e sentimental", dotada de um instinto musical quase tão agudo quanto o de Mozart e uma predisposição para perturbações pulmonares, indício de morte prematura.
A sua pessoa, como sua música, era um poema elegante, o que representava para ele fonte de grandes satisfações.
A palavra tristeza é, porventura, pesada demais para se aplicar a um rapaz de vinte anos. A tristeza, no entanto, era o talismã a que ele se apegava, desesperado, para subtrair-se às angústias do seu contentamento. Cria fervorosamente na melancolia, aquele feixe de nervos superexcitados e cansados, aquela ruína tuberculosa e maltratada de vinte anos.
A consciência o torturava. O momento era de nervosismo nacional. O povo se esquecera das humanidades, das artes, das ciências, da paz contemplativa e criadora.
Mas nos dias angustiosos, como Dante o observou, não há sofrimento tão amargo quanto a memória das passadas alegrias.
“Aqui estou eu com as mãos vazias, deitando o meu desespero em notas tinintes”.
Volvido algum tempo, abrandou-se-lhe a extrema aflição mental.
No meio dessa sociedade de magníficos sonhadores, artistas que tinham a audácia de olhar para um mundo melhor, caminhava o polonês enfermiço e triste. Sentava-se ao piano e arrebatava-os, a todos, com a sua poesia. Tinha vinte e poucos anos e sentia que ainda lhe faltava muita coisa para aprender no respeitante à sua arte.
Entre os primeiros a reconhecer o gênio de Chopin figura Franz Liszt, o maior pianista do seu tempo. Liszt achava-se presente a um concerto dado a pelo recém chegado a Paris, e, ao lado dele, sentara-se aquele outro músico mágico, Felix Mendelssohn. Quando Chopin principiou a tocar, ambos compreenderam que era Deus quem falava pelos dedos do rapaz.
Diversamente de Liszt, Chopin tinha qualquer coisa de recluso. Aristocrático por instinto, desadorava a humanidade quando representada pelas massas. Temia as multidões.
“Enchia a sombra de um conclave de fadas”.
Instalou-se em luxuoso apartamento e, na sua soledade, aspirava o perfume das violetas.
Para compensar, contudo, a sobriedade obrigatória da existência física, enriquecia sua música com uma incomparável embriaguez psíquica. Com menos de trinta anos, escrevendo exclusivamente para piano, cuspindo sangue dos pulmões devastados, era adorado pela sua música.
E quem poderá escrever música forte quando tem o coração fraco?
“Se me tivesse compreendido, talvez me pudesse ter amado”.
Um dizia que eu havia de morrer, o segundo, que eu estava prestes a morrer, o terceiro, que eu já estava morto.
Embora lhe declinassem rapidamente as energias, a poderosa labareda do gênio senhoreou-se dele e imprimiu-lhe verdadeira fúria criadora. Sentava-se ao piano e embrenhava-se na música. “Ele não sabe sequer em que planeta vive”. Chopin, sepultado na própria música, não atentava em coisa alguma.
Amigos instaram-lhe que escrevesse óperas e sinfonias a fim de “demonstrar o seu talento a um mundo que não se fiava dele”. Ele, porém, encolhia os ombros, a sorrir. “Quem quer que pudesse ler-lhe o rosto veria quão amiúde possuía a convicção de que entre todos os senhores bem vestidos e entre todas as senhoras perfumadas que lhe frequentavam os concertos, não havia uma única pessoa que compreendesse verdadeiramente o seu propósito”.
Sentado em sua cela, Chopin conversava com o seu piano e contemplava o declinar da própria vida.
Cada um de seus dedos “era uma voz delicadamente diferenciada”. Ele sentava-se ao piano e convertia-o em vida.
Não tema os pesares da tristeza. A sua vida dissolvia-se em música.
As luzes estavam apagadas. Chopin arpejava. Tinha lágrimas nos olhos. As notas semelhavam as vergastadas de uma tempestade de neve açoitando o quarto. “Sonhei que você estava morta”.
Despertara o monstro oculto no piano e este lhe atirava setas de melancolia ao coração.
Espalhados em vasos por todos os cantos havia ramos de violetas – suas flores prediletas. Um perfume leve. Música perfumada. Canções crepusculares de fragrante tristeza.
A sua música delicada estremecia ainda como uma chama tocada pelo vento. Música estranha e melancólica, em tons menores, canções do vento e das estrelas e dos mistérios da noite.
Um dia, após o pôr do sol. As suas almas, como a de Chopin, afinar-se-iam com a música da noite. Porque a noite é apenas um prelúdio para outro dia.
“Quando eu tiver ido embora”, - foram estas as suas últimas palavras – “toquem um pouco de música para mim, pois sei que hei de ouvi-los no além”.




Eu, Álison

sexta-feira, 13 de julho de 2012

F. Mendelssohn

Que estranho fenômeno, esse jovem compositor-regente – pouco maior, no físico, que uma criança, e no talento, pouco menor que um deus!
Mas se Mendelssohn era o observado de todos, era também o observador de tudo. Sentado ao piano, não se lhe atarefavam menos os olhos do que os dedos.
A magia dos panoramas escoceses não só lhe despertou a fantasia musical senão ainda a poética: “Quando o próprio Deus se mete a pintar panoramas”, escreveu numa carta da Escócia, “faz quadros estranhamente belos”.
“Ele era sinceramente dedicado aos amigos. Era, de feito, uma felicidade ser amado de Felix”. E amá-lo.
Ele possuía, felizmente, senso de humor, uma habilidade de compreender a pequenez do homem dentro da grandeza do universo. Habituara-se a olhar o mundo sob um prisma filosófico.
Diante dos túmulos de Beethoven e Schubert, em Viena, ponderou: “A sepultura é o fim de todos os esforços. Há-de o gênio renunciar em prol do mundo os seus trabalhos e arrastar-se depois para um canto a fim de morrer”.
A maior parte dos seus pensamentos, no entanto, estavam muito distantes da morte, pois uma perpétua canção de primavera borbulhava na alegria do seu coração.
Apaixonava-se incessantemente: contudo, diversamente de Liszt, jamais roubou a outros o seu amor.
“Não se passa um dia sem que ele produza pelo menos alguns pensamentos que deviam ser incontinenti gravados em ouro”.
Cecília não era excepcionalmente brilhante, nem excepcionalmente prendada. Era, todavia, excepcionalmente bela e tão delicada quanto bela. “A sua disposição serena a alegre”, escreveu ele, “é como uma bebida fria para meu espírito inquieto”. Esta menina, com seus lindos olhos e a sua tranquila disposição, há-de, muito provavelmente, curar-lhe de todos os acessos de irritabilidade.
Delegações, discursos, serenatas – glórias amontoando-se sobre glórias, torturas sucedendo-se a torturas. O preço de um êxito demasiadamente grande. A maçã envenenada da fama excessiva. O esforço comprometeu-lhe irremediavelmente a saúde.
Duas criaturas encantadas, pasmadas diante do milagre do desabrochar das flores humanas. Não tardou muito o dia, porém, em que Mendelssohn devia quedar-se igualmente pasmado diante do milagre do colher das flores humanas. Milagre e mistério amargo.
O mestre levantou subitamente a cabeça e atirou-a para trás num gesto que bem conheciam os presentes. Fora chamado o maestro para dirigir, no além, o seu primeiro concerto.




Eu, Álison

quarta-feira, 11 de julho de 2012

L. V. Beethoven - Continuação

Não me é dado encontrar recreação na sociedade dos homens, numa conversação requintada, na recíproca permuta de ideias e sentimentos... Devo viver como exilado. Mais um pouco, e eu teria dado cabo da minha vida.
Logo, porém, desistiu da ideia da morte. Ele tinha algo por que viver – a sua arte. “A arte apenas me susteve... Esvaziei a taça de amargo sofrimento... Este se transformará em beleza dentro da minha alma...”.
“Em memória de um grande homem” – um homem cujo corpo ainda vivia, mas cuja alma já morrera.
O cinismo de Beethoven aumentou com os anos. Para muitos dos seus contemporâneos ele não era um gênio, senão um excêntrico. Mostrava-se rabugento diante dos amigos, arremessava livros contra os criados e insultava os benfeitores. “O que sois, vós o deveis ao acaso e ao nascimento. O que sou, devo-o a mim mesmo. Já ouve e haverá ainda milhares de príncipes. No entanto, existe apenas um só Beethoven”.
Mas era a impetuosidade e o fogo de um vulcão, das grandes forças da própria Natureza, pois havia nele um Titã. Sem embargo, essa fúria exterior ocultava um coração delicado.
As suas amizades, entretanto, representavam mero incidente em sua vida. Era a música a única paixão que o possuía. A criação na soledade. “Vivo só, mas não me aflijo por isso, pois sei que Deus esta mais perto de mim que dos outros”.
E, em todos os casos, música de cunho único, original e divino, forjada no metal puro da fantasia de Beethoven. A música de Beethoven interpretando as ideias de Deus.
A história da luta do Homem contra o Destino e da vitória do Homem guiado pelo céu. É o poema épico da peregrinação do Homem do Sofrimento para a sabedoria, da sabedoria para a coragem, da coragem para a esperança e desta para a vida eterna.
Um dos grandes acontecimentos na vida de Beethoven foi o seu encontro com Goethe. Foi aí que o poeta dos sons veio a conhecer o poeta das palavras. “É a joia mais preciosa da nossa terra”. Davam, todavia, longos passeios, cada qual absorto nas próprias ideias – dois artistas supremos a traduzir o mistério do mundo em linguagens diversas.
É uma diferença de princípios, profundo desencontro no que concerne aos valores reais da vida. Para Goethe, a realeza era mais importante que o gênio. Para Beethoven, o gênio era mais importante que a realeza.
A surdez não foi um acidente nem uma tragédia. Foi o amanho do solo para o florejar do gênio.
Jazia Beethoven em seu leito de morte. Estava, naquele momento, inconsciente. Fora rugia terrífica tempestade. De repente, o fuzilar de um relâmpago. Depois, tornou a cair para trás, morto.






Eu, Álison

terça-feira, 10 de julho de 2012

L. V. Beethoven

Bach foi o matemático da música; Mozart, o poeta; Beethoven, o filósofo. No jardim do espírito humano é a semente da filosofia a única que floresce.
Não lhe era fácil tarefa atender aos mínimos pormenores do governo da casa, pois grandes pensamentos principiavam a agitar-se dentro dele. Aborrecido com o destino e preocupado com a saúde, tornou-se amargo, sarcástico, mal humorado.
Possuíam-no acessos violentíssimos de raiva e acometimentos igualmente violentos de remorsos.
Possuía especial habilidade em fazer amigos a despeito do gênio fogoso e da língua mordaz. Os outros admiravam-lhe o espírito puro, indômito e rebelde, o absoluto desprezo das delicadezas excessivas diante das realidades da vida. A figura atlética, atarracada e rude e o espírito teimoso, positivo e incapaz de transigências exerciam poderosa fascinação. “Ainda bem”, disse um amigo depois da visita de Beethoven à corte, “que você conhece a etiqueta apropriada em presença da nobreza”. Ao que Beethoven replicou: “Pois você devia dizer: ainda bem que a nobreza conhece a etiqueta em presença do gênio”.
“A felicidade”, dizia ele “não foi feita para mim; ou melhor, eu não fui feito para a felicidade”. O seu gênio precisava de solidão para desenvolver-se. Solidão e sofrimento. “Não vim ao mundo para levar uma vida agradável, mas para realizar uma grande obra”. Retirou-se da sociedade e tornou à casca de eremita da sua rebeldia e da sua rudeza.
O temperamento de Beethoven era explosivo, arrogante – e triste. Quem sente intensamente, sofre intensamente. Um instrumento afinado com a beleza é sensível à dor. A mesma sensibilidade nervosa que lhe proporcionava o gênio proporcionava-lhe também a infelicidade.
Beethoven aspirava a realizar-se a si próprio. Ouvir-lhe-iam a música e quedariam maravilhados diante do novo gigante criativo que assomava ao horizonte.
“Acreditarão, acaso, que posso pensar em um miserável violino quando converso com o espírito?”
De conforme com seu temperamento ardente, Beethoven estava sempre se apaixonando por esta ou aquela mulher. Beethoven, certo, não era o tipo de homem destinado a conquistar o coração feminino.
Surdez e romance nunca se deram muito bem. As palavras ternas de afeto hão de ser murmuradas, e não pronunciadas aos gritos. As mulheres que rodeavam Beethoven admiravam-no, compadeciam-se dele, chegavam, às vezes, a adorá-lo; nunca, porém, o amaram.
E essas senhoras ansiavam por ouvir e aplaudir Beethoven, embora não ansiassem a flertar com ele. Não se flerta com um deus.




Eu, Álison

sexta-feira, 6 de julho de 2012

W. A. Mozart

E diga-nos, papai Leopold, que é que o vêem aqueles olhos?
Que é o que se pode fazer com uma criança assim? Amarrar-lhe o coração? Mas se até o som de uma trombeta lhe punha na alma espasmos de dor!
O mundo mostrar-se-á duro para com ele. Mas, que monta o mundo? Por que perder tempo com lamentações? Wolfgang é uma criança de gênio. Ele que tire disso o melhor proveito.
Aos cinco anos de idade escreveu Mozart um concerto para piano de dificílima execução para qualquer um. Espantoso dom!
Uma chama tão brilhante queimaria muito cedo o óleo do corpinho delicado.
Seria ele, acaso, jovem demais para tais sonhos? Absolutamente.
O jovem maestro estuda o belo da natureza e devolve-nos essa beleza engalanada com a mais rara graça musical.
E agora que crescera e se tornara um homem, compreendeu quão pouco se apreciam os homens uns aos outros.
Abrace-se com Deus, Wolfgang, você ainda conhecerá verdades amargas acerca os homens.
E, de feito, era o destino de Mozart desiludir-se desde o princípio.
Você sucumbe com exagerada facilidade diante de qualquer atração que lhe surge pela frente, como um obstáculo em seu caminho.
A branca pureza do som pode ser tão horripilante quão delicada. Nunca são as rosas brancas tão tristemente belas como quando cercam a morte. Don Giovanni é uma ópera da morte e da noite. A magia do luar sobre a alameda de ciprestes - tal é o fantasmagórico feitiço dessa música.
Ele parecia caminhar num pesadelo. Tinha um jeito curioso de levar os dedos aos lábios para impor silêncio a quem quer que entrasse em sua casa.
Bom dia, mulherzinha querida. Espero que tenhas dormido bem e que não tenhas sido incomodada.
Mozart esmorecia lentamente. Principiaram a povoar-lhe o espírito visões sombrias, e funéreos pensamentos a obcecá-lo. "A morte é a única meta na vida que vale a pena. É um amigo verdadeiro e dedicado".
A noite estranha e mística, que apaga o resplendor do Sol e abranda a febre do dia. Ela desce numa branda chuva remoinhosa de sussurros - sussurros e sonhos, e ergue a cabeça inclinada sobre o liso travesseiro da mortalidade, para a visão do infinito. Não padecerá mais, meu amigo... Por que tremer diante da noite? Vamos Mozart, você é a única pessoa que não deve temê-la. Componha a música para a noite. Entreteça-lhe as sombras com a sua magia tonal. Vamos, vamos, meu amigo, você é a noite!
Que necessidade tinha de ouvir os aplausos dos vivos quando já lhe soavam aos ouvidos os aplausos da legião dos mortos? Aclamavam-no com murmúrios espectrais. "Bravo maestro!"
Jazia pálido. Não era a palidez do sofrimento, senão da paz. Uma febre dera-lhe cabo da existência aos trinta e cinco anos.
Konstanze fora colocada sob os cuidados de um médico. Poucos dias após o enterro, encaminhou-se furtivamente para o cemitério. Procurou, com passo vacilante, a sepultura do marido. Não encontrou um indício sequer. Topou, por acaso, com a choça do zelador. "O senhor poderá me dizer", perguntou com voz trêmula, "onde foi enterrado meu marido? Chamava-se Mozart".
"Mozart?", repetiu o zelador. "Nunca ouvi falar nesse nome".




Eu, Álison

segunda-feira, 2 de julho de 2012

G. F. Handel

Já não são as notas cascata rumorejante, mas constelação de sons a dançar!
Era-lhe, contudo, possível compor tão depressa e tão bem porque fora dotado de um poço inexaurível de gênio musical, que exsurgiu fervilhante, à superfície numa idade pasmosamente tenra.
Apaixonou-se com ardor pela pintura italiana, pois era um poeta da vista como o era do ouvido.
O gênio traçou-lhe um caminho próprio. Parou, com efeito, alguma vez, à beira da estrada para colher uma flor familiar e aspirar-lhe o perfume.
Flor estranha, nova, bela e exótica da música.
Tornou-se o público de Handel "extremamente escasso" e o compositor deixou-se possuir de "estranhada melancolia".
Não é, pois, de admirar, que se lhe debilitasse a saúde e tenha chegado seu espírito quase a ponto de extraviar-se.
Foi, porém, como um fuzilar de um relâmpago nas trevas da noite.
No meio do espetáculo, perdeu os sentidos. Levado para casa e posto na cama, nunca mais se levantou.






Eu, Álison

sábado, 30 de junho de 2012

J. S. Bach

Os maiores obstáculos contra o progresso de um homem não são, às vezes, forças impessoais, senão humanas, pensava Bach.
Meus bons amigos, vocês não compreendem esse Bach. É um gênio.
Meu Deus! Existe apenas um grande Bach!
Assim, de feito, é que era: mas que poderia fazer um pobre diabo de aluno com um louco que improvisava em claves completamente estranhas ao ouvido humano e que saltava de uma clave para outra, displicente, sem a menor pausa na torrente de sua melodia?
Família de estranhos talentos e nervos sensitivos, esses Bachs. Especialmente papai Sebastian. Quando alguém sente a música com profundeza, com demasiada profundeza, força é que se mostre irritadiço em relação a esses organistas profissionais, cujas notas desajeitadas são outras tantas punhaladas no coração da gente.
E isso, ainda por cima, dava à gente a reputação de ser um velho maníaco intratável. Velho maníaco intratável!
Que poderiam esses parvos compreender no tocante a superioridade da visão alheia?
O segredo da minha harmonia? Só eu o conheço.
A ciência da minha arte. A arte da minha ciência. A harmonia das estrelas no céu, o anseio de fraternidade no coração do homem. Tal é o segredo da minha música.
Das profundidades do abismo chamei por Ti, Senhor. O derradeiro brado. Depois, o silêncio.
Simples como o canto dos pássaros ao sol que nasce ou que morre.
Agora, após um dia tranquilo, a tranquilidade da noite.
Isso foi tudo.
É possível que vários séculos se passem ainda antes que o mundo se advirta da existência dele.





 Eu, Álison