Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos.
Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou! — Ludwig van Beethoven, Testamento de Heilingenstadt, 6 de Outubro de 1802.
Não tem mais graça ouvir as outras músicas... Depois de ouvir Beethoven. Esse é o 4º movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven e é chamada "Ode à Alegria" (Ode é uma composição feita em homenagem a alguém). Não é possível entender como uma pessoa que, nessa época, já estava quase surda, pode criar algo tão incrível. Ele teve que compor para diversos instrumentos diferentes (mais de 10), escrever toda a letra e dividi-la entre o quarteto e o coro, organizar os tempos de cada instrumentos e de cada voz (que algumas vezes cantam simultaneamente partes diferentes da letra), tantos detalhes, tantos, tantos! Você pode me dizer que todos os maestros de música erudita compõem dessa forma, e está certo, mas não são todos, pelo contrário, são pouquíssimos, que criam algo há quase 200 anos atrás com esse nível e que são considerados como exemplo de grandeza. É realmente notável. Parabéns Beethoven e obrigado por ter-nos deixado obras como essa que suavizam a aspereza da vida.
Oh Freunde, nicht diese Töne!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen
und freudenvollere!
Freude, schöner Götterfunken,
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken.
Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Deine Zauber binden wieder Was die Mode streng geteilt; Alle Menschen werden Brüder Wo dein sanfter Flügel weilt.
Wem der grosse Wurf gelungen
Eines Freundes Freund zu sein,
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund.
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund
Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur;
Alle Guten, alle Bösen,
Folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!
Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels prächt'gen Plan,
Laufet, Brüder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen.
Freude, schöner Götterfunken, Tochter aus Elysium, Wir betreten feuertrunken. Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder Was die Mode streng geteilt; Alle Menschen werden Brüder Wo dein sanfter Flügel weilt.
Deine Zauber binden wieder Was die Mode streng geteilt; Alle Menschen werden Brüder Wo dein sanfter Flügel weilt.
Seid umschlungen, Millionen. Dieser Kuss der ganzen Welt!
Seid umschlungen, Millionen. Dieser Kuss der ganzen Welt! Brüder! Über'm Sternenzelt Muss ein lieber Vater wohnen.
Brüder! Über'm Sternenzelt Muss ein lieber Vater wohnen.
Ihr stürzt nieder, Millionen? Ahnest du den Schöpfer, Welt? Such ihn über'm Sternenzelt! Über Sternen muss er wohnen.
Über Sternen muss er wohnen.
Seid umschlungen, Millionen. Dieser Kuss der ganzen Welt!
Seid umschlungen, Millionen. Dieser Kuss der ganzen Welt!
Ihr stürzt nieder, Millionen? Ahnest du den Schöpfer, Welt? Such ihn über'm Sternenzelt! Über Sternen muss er wohnen.
Freude, tochter aus Elysium,
Freude, tochter aus Elysium,
Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder Wo dein sanfter Flügel weilt.
Alle Menschen werden Brüder
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Seid umschlungen, Dieser Kuss der ganzen Welt! Brüder! Über'm Sternenzelt Muss ein lieber Vater wohnen.
Seid umschlungen, Dieser Kuss der ganzen Welt!
Freude, schöner Götterfunken, Tochter aus Elysium, Freude, schöner Götterfunken! Götterfunken!
Oh amigos, não esses tons! Entoemos algo mais prazeroso e mais alegre!
Alegre, formosa centelha divina, filha do Elíseo. Ébrios de fogo entramos em teu santuário celeste! Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém.
Quem já conseguiu a maior fortuna de ser amigo de um amigo. Quem já conquistou uma mulher amável junte-se a nossa alegria! Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma, uma única em todo o mundo. Mas aquele que falhou nisso deve rastejar chorosamente e ir embora em lágrimas e sozinho! Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma, uma única em todo o mundo. Mas aquele que falhou nisso deve rastejar chorosamente e ir embora em lágrimas e sozinho!
Todos os seres bebam da alegria no seio da Natureza. Todos os bons, todos os maus, seguem seu rastro de rosas. Ela nos deu beijos e vinho e um amigo leal até a morte. Deu prazer para com a vida até aos humildes e ao querubim que se ergue diante de Deus! Ela nos deu beijos e vinho e um amigo leal até a morte. Deu prazer para com a vida até aos humildes e ao querubim que se ergue diante de Deus!
Alegremente, como seus sóis correm através do esplêndido espaço celeste. Se expressem, irmãos, em seus caminhos, alegremente como o herói diante da vitória. Alegre, formosa centelha divina, filha do Elíseo. Ébrios de fogo entramos em teu santuário celeste! Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo!Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado. Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado. Milhões se prostram diante Dele? Mundo, você percebe seu Criador? Procure-o no mais alto do céu estrelado! Sobre as estrelas onde Ele mora, Sobre as estrelas onde Ele mora. Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Milhões se prostram diante Dele? Mundo, você percebe seu Criador? Procure-o mais acima do céu estrelado! Sobre as estrelas onde Ele mora.
Alegre, filha do Elíseo. Alegre, filha do Elíseo.
Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se tornam irmãos onde teu doce voo se detém. Abracem-se! Este beijo é para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado mora um Pai Amado.Abracem-se milhões! Este beijo é para todo o mundo! Alegria, formosa centelha divina, filha do Elíseo. Alegria, formosa centelha divina! Centelha divina!
O texto que segue foi retirado da biografia de Johannes Brahms, compositor de música clássica. O autor comenta sobre o desinteresse do músico com sua aparência física. Isso serve claramente para demonstrar como a aparência nada tem a ver com as qualidades de uma pessoa. Nesse caso, por mais desleixado que Brahms pudesse parecer, isso em nada impediu que ele se tornasse o gênio que era.
Porque aquilo que você está enxergando não necessariamente é daquele jeito.
E como se quisesse acrescentar um novo símbolo ao seu caráter de eremita, deixou crescer uma barba que, com o tempo, se tornou branca e majestosa - e que lhe servia, além disso, para esconder o colarinho aberto, pois raramente usava gravata. À medida que envelhecia, tornava-se maior e mais pronunciado seu desleixo. Era, no íntimo, um camponês, que se agradava dos trajes grosseiros e das grosseiras gargalhadas dos camponeses. Trazia sempre um velho chapéu estragado que se diria ter saído de um cinzeiro. Nas mais rigorosas cerimônias envergava camisas de flanela sem mangas. As calças surradas apenas lhe chegavam aos sapatos. Certa noite, numa festa, como a conversa passasse a versar sobre meias, escandalizou um grupo de velhas senhoras vienenses observando: Vejam como são elegantes as minhas meias". E levantou a calça para mostrar um tornozelo nu. Via-se-lhe, de ordinário, um remendo no assento das calças e nos cotovelos do paletó de alpaca. Raramente trocava de roupa. Atirava-a de qualquer maneira dentro da mala quando tinha de viajar, e deixava-a espalhada pelo chão quando vinha dormir em casa. Nunca ninguém o viu passá-la a ferro. Persuadiram o alfaiate dele a cortar-lhe um par de calças que tivesse o comprimento adequado, mas quando Brahms as recebeu, cortou-lhe até que lhe ficaram acima dos sapatos. Nem sempre, no entanto, era muito acurado em seus cortes, de modo que, muitas vezes, aparecia com uma perna mais comprida do que a outra. Mesmo enquanto jovem, antes de se lhe confirmarem os hábitos de solteirão, demonstrava o mesmo relaxamento no tocante à aparência física.
Toda vez que se lhe rasgava as calças ele reunia os pedaços rasgados com lacre. "O que atrapalhava é que o lacre não durava muito tempo".
Já aconteceram várias vezes das pessoas unirem dois estilos de música diferentes para criar um terceiro tipo que tivesse características tanto de um quanto de outro. Um exemplo que posso dar é a união entre Música Erudita e Heavy Metal, originando o Metal Sinfônico. Você une as orquestrações da Música Erudita com a velocidade do Heavy Metal. Você até pode não ouvir músicas desse estilo, mas elas são bem feitas e têm qualidade.
Agora as pessoas juntaram Funk e Sertanejo e dizem que criaram um estilo de "música" novo? Eles uniram um estilo que fala basicamente de sexo ou alguma variante do tipo com ritmos que se repetem da mesma forma durante toda a música, com outro que tem em suas letras palavras do tipo "tchu", "tche", "lêlêlê" ou qualquer coisa parecida que não tenha sentido e com compositores que tapam o buraco nas suas músicas colocando o nome deles como parte da letra.
Depois as pessoas se perguntam onde está o problema...
Stravinsky não é apenas um grande compositor. É também o protagonista de um produto fantástico, um novo tipo de música amusical, uma rebelde, surpreendente e, por consequência, sedutora harmonia de discórdias.
Murmurava-se que ele era um deus pagão redivivo, que descera das alturas do Olimpo para dançar diante dos homens. A Rússia prostou-se-lhe aos pés para adorá-lo. As mulheres entravam em transes a sua aproximação.
Lograria Stravinsky escrever uma música suficientemente horripilante? Ele assumira os encargos de um doutor feiticeiro dos sons.
Engana-se quem espera que a música deva expressar alguma coisa. A música, verdadeiramente, não deve evocar sentimento nenhum. “Toda emoção é uma ilusão. A única propriedade da música é a sua estrutura intelectual. A música há de ser admirada e não gozada”. Sem embargo, seduzia as paixões primitivas do gênero humano.
As qualidades emocionais que faziam rebolar as cadeiras não o interessavam, pois decidira, inexoravelmente, que a música há de ser intelectual e não emocional. Compreender as paixões alheias? Sim. Mas sucumbir a elas? Positivamente não. A curiosidade desse homem era insaciável. Não o comovia de maneira alguma a beleza voluptuosa da musa. Preocupava-se muito mais em estudar-lhe as vértebras da espinha. Não era um poeta da emoção tonal, mas um cientista do colorido tonal.
O espírito americano, inventivo, deixa-se fascinar pela novidade na arte assim como na ciência. E Stravinsky é sempre novo, sempre experimental, sempre único. Sempre se poderá esperar dele o inesperado.
A sua música, como as suas palavras, podiam, por conseguinte, dar-se ao luxo de não ter sentido – um ritual arcaico para uma religião fora de moda, que teria a pomposa dignidade e a sagrada frigidez de uma consagração religiosa a um deus morto. E este homem odiava de tal forma o sentimentalismo que nos faz desconfiar que era, no íntimo, extremamente sentimental. Foi assim que surgiu o oratório, tentativa irracional de recapturar o racionalismo dos antigos pagãos. Não capturou, contudo, nada de sua beleza, mas tão somente a sua frieza de mármore.
Stravinsky está se tornando cada vez menos poeta e cada vez mais professor, sacrificando a arte à excentricidade, o coração ao espírito. A maior das músicas, acredita ele, há de seduzir o espírito e não o coração.
A atitude desses outros, todavia, não o fará desviar-se do seu caminho. Não cederá diante dos “que, em sua cegueira, não compreendem que estão pedindo que eu retroceda”.
Em outros tempos tivera ele uma visão acerca de uma boneca em uma feira. Dotada subitamente de vida, a boneca dançou durante algum tempo, compreendeu as alegrias e as tristezas da vida, e depois morreu como qualquer criatura humana. A música de Stravinsky a propósito dessa boneca era colorida, irônica e sobrecarregada de emoção. Patrushka, a boneca que sofria como um ser humano. A boneca mecânica vivera uns poucos momentos elétricos diante do aparato cintilante de um bazar, dançara e amara com intensa paixão e logo – que ironia! – morrera de um excesso de sentimento humano. Assim também a musa de Stravinsky, mecânica por natureza, tivera por uns poucos momentos um coração e derramara a música do sentimento humano. O coração, porém, morrera logo depois sufocado pelo excesso da própria emoção. E hoje, a musa de Stravinsky é, de novo, uma inteligente boneca mecânica sem coração.
Manifestou-se-lhe cedo, embora não precocemente, o talento musical.
Nem bem eram decorridos dois anos quando, sem nenhum treino metódico, começou ele a expressar-se numa linguagem musical própria. Rejeitando a influência dos clássicos, entrou a formar um novo idioma, uma interpretação individual das nórdicas paisagens com a espuma dos mares, as suas florestas e as suas montanhas. De tal arte se absorvia Sibelius na música e nos sonhos que prestava pouquíssima atenção às aulas do colégio.
No refúgio do seu quarto, contudo, compunha a seu belo prazer, utilizando-se do estilo e dos métodos próprios.
“Eu não podia resistir à impressão de ser um escavador desenterrar esqueletos do passado”. Sibelius estava destinado a tornar-se um dos grandes paradoxos da música moderna.
O seu amor à natureza – ou para expressá-lo em seu sentido mais lato, o seu amor à vida – era nele uma religião. A música é apenas um dos espelhos que refletem a vida.
O compositor cometeu toda a sua vida espiritual ao julgamento da própria alma. Não se deixava influenciar pelos valores convencionais alheios, especialmente pelos dos críticos profissionais que se propunham a estimar o infinito da arte através do finito dos seus óculos.
As suas lutas era mentais e não materiais. “Dir-se-ia um pensamento nascido debaixo de um céu enfarruscado forcejando, lentamente, por alcançar regiões mais puras”.
Quando alguém proclamava, aos berros, seu amor a outrem, não faz outra coisa senão por em praça seu amor a si mesmo. Sibelius não acreditava na demonstração vulgar de emoção. A harmonia do controle é tão necessária nos tons da orquestra como nos sentimentos do coração humano.
Existe amiúde um grande abismo – diz Sibelius – entre os temas ideais que atravessam o cérebro do compositor e os sons audíveis que chegam aos ouvidos dos frequentadores de concertos em sua forma final. “Há na música, como na vida, toda a sorte de obstáculos à expressão efetiva das nossas ideias”.
Nunca foi a melancolia da vida mais sincera ou mais graficamente expressada. Ninguém mais, entretanto, teria sido capaz de entendê-la, pois trata-se de uma expressão pessoal profunda e única pertencente a um mundo próprio – um mundo que nenhuma outra composição musical pôde jamais penetrar. É a casta criação de um gênio austero e retrata a força inquieta de um destino esmagador.
Principiara a vacilar a fé que possuíam muitos homens voltados para as coisas do espírito. Sibelius já atingira em sua música as profundezas do pessimismo. Mesmo antes da guerra impressionara-o profundamente o espetáculo da desumanidade do homem em relação ao homem.
Sibelius encerrou sua série de sinfonias no número mágico – sete. E nessas sete sinfonias demonstrou uma versatilidade somente igualada por Beethoven.
Como no caso de Beethoven e Shakespeare, surpreendemo-nos a fazer a seguinte pergunta: “Pode um espírito humano abranger tamanha diversidade de pensamento?”.
“Ninguém suponha que a composição se torna mais fácil com o passar dos anos quando o compositor leva a sério sua arte. Quanto mais velho o artista, maiores as exigências que faz a si mesmo... A gente vive a topar com problemas novos”.
Lá se reuniam moços de talento de todas as partes da Itália.
Os músicos devotavam-se às técnicas da composição e à arte do amor. E toda a
gente cantava – alegre e melodioso coral em honra da deusa da alegria.
Puccini assistira à estreia e lágrimas de comoção tinham-lhe
assaltado os olhos diante dos aplausos tumultuosos – lágrimas de felicidade pela
boa fortuna do amigo, mas também lágrimas de dor e de inveja, pois ele ainda não
obtivera distinção.
Derivava-lhe rápida, mas não profunda, a corrente do gênio.
O narcótico de sua música destinava-se, todavia, a encantar o mundo.
“No dia em que eu não mais me apaixonar, poderão me
encomendar o enterro”.
Puccini vivia perseguido por essa espécie, aliás, desejável,
de lunatismo. O seu principal prazer, no entanto, era a solidão. A conversa dos
amigos, a fumaça densa a subir para o teto e a música a sair-lhe borbulhante da
ponta dos dedos – tal era a ideia que fazia da solidão, do céu na terra.
Para além do avarandado, estendia-se em lago de prata,
contrastando com o firmamento noturno. E lá, ao piano, enquanto tecia os seus
sonhos, a observar o lago e a floresta, sentia-se, ao mesmo tempo, criador e
parte íntima de toda a criação.
“Mas é imortal, porque ama com o coração que sabe sofrer. Tocarei
agora a cena da morte, que acabei de completar”. Ouvindo a música, sentiram os
amigos que a comoção os subjulgava. –
Você também será imortal – observou um deles.
Puccini sorriu. – talvez.
Em sua música não havia força cósmica. Não falava a
linguagem dos deuses senão a das criaturas humanas.
O destino – mestre da surpresa pondo termo ao drama da vida
humana.
Era aos sete anos em sujeitinho reservado, quieto, meditativo, que nunca brincava com as outras crianças.
Rico material para a construção de novos edifícios de música. Torres enfeitadas de arabescos de desenho delicado. Palácios encantados de sons sem precedentes.
“Quem são, afinal, esses juízes? Que sabem a respeito de arte? Terão, acaso, a certeza de serem eles próprios artistas? De onde deriva, então, o seu direito de conduzir a barca misteriosa do gênio?”.
Debussy exultou. “Graças a Deus”, disse ele, “consegui, finalmente, escrever alguma coisa original!”. Irrequieto, andava de um lado para o outro no quarto enquanto compunha, um toco de cigarro na boca, música rebelde no coração. Ele revolucionaria o mundo dos sons.
Pouco se lhe dava a opinião pública. “Umas poucas pessoas apreciarão as minhas obras. E quanto ao resto, não me importa o que possam pensar”.
Porfiava sempre em arrancar-lhe cadência nova, a estranha sequência de cores, a combinação sutil de sons, os ecos de vozes encantadas vindas de mundos desconhecidos.
Aborrecia a necessidade de roubar tantas horas às realidades dos seus sonhos para dedicar às inanidades da existência. Os seus pensamentos, como seus hábitos, eram irregulares.
Os seus verdadeiros prazeres, no entanto, tinha-os nos sábados à noite, quando os velhos e queridos amigos se reuniam em sua casa.
Tornara-se perito no sutil matizar das palavras, assim como era perito na matização sutil dos sons.
O seu desprezo aos outros, entretanto, era contrabalanceado pela sua modéstia em relação a si mesmo. Raramente falava da própria música. Nunca se considerou um grande homem.
Não tenho feito outra coisa senão realizar experimentos a fim de satisfazer o meu gosto pelo inexpressível. Em lugar disso, uma encantadora corrente de música que transporta os corações de alguns poucos iniciados para aquelas “mágicas janelas encantadas, que se abrem na espuma de mares perigosos, em perdidos recantos de fadas”.
Crianças refugiadas, perdidas no inferno do campo de batalha. Nada veem à volta de si senão o frio, a fome, o medo e a incerteza do futuro.
“O artista na civilização moderna”, dizia, “será sempre uma criatura cuja utilidade só há de ser reconhecida após a sua morte”. Desdenhava o materialismo do mundo. Evitava a companhia dos homens de negócios, da maioria dos homens.
Mas o seu tempo de amar, e de viver também, chegara quase ao fim. Atacado de câncer, os últimos anos de sua vida foram anos de tortura. De princípio, buscou esconder dos amigos a enfermidade. Por que aborrecê-los com as suas preocupações? Não tinham eles, acaso, preocupações próprias?
Proféticas palavras!
O seu caráter, como sua música, tinha mais a perfeição da ciência que da paixão da arte.
De vez em quando, no entanto, “por brincadeira”, e movido de uma curiosidade científica por separar as coisas e tornar a ligá-las, “compunha música e reunia notas”.
“Obedeciam-no cegamente, pois o fascínio da sua personalidade era tremendo”.
“Vocês devem mergulhar, intrépidos, no oceano da composição”, dizia ele, “e aprender a afundar ou a nadar. Se tiverem talento para nadar, tanto melhor para vocês. Se forem infelizes a afundarem, tanto melhor para o mundo”.
Ele cessara de acreditar num Deus que permitia tamanhos males debaixo do sol. Buscava, porém, encontrar consolo na música. Como fossem desatendíveis as suas obrigações a bordo, sobejava-lhe tempo para consagrar-se a música – e ao estudo da astronomia. O oceano é um magnífico ponto de observação para se contemplar o esplendor do firmamento.
“O azul escuro do céu durante o dia era, à noite, substituído por fantástica fosforescência. À medida que navegávamos para o sul, tornava-se o crepúsculo cada vez mais curto e as estrelas e os planetas rompiam sobre nós com súbito esplendor. Que refulgência na Via Láctea, com a constelação do Cruzeiro do Sul. Que magnificência de Canopus, nas estrelas do Centauro, no vermelho ardente e brilhante de Antares, visível na Rússia como pálida estrela nas noites claras de verão! Sirius, que na Rússia se vislumbra nas noites invernosas, parecia aqui duas vezes maior e mais brilhante. Logo se tornaram visíveis todas as estrelas de ambos os hemisférios. A Ursa Maior via-se baixa, justamente acima do horizonte, ao passo que o Cruzeiro do Sul se elevava cada vez mais. A luz da lua cheia, submergindo entre as nuvens amontoadas e delas emergindo, era simplesmente ofuscante. Maravilhoso é o oceano tropical com sua cor azul e seu brilho fosforescente; maravilhosas são as nuvens tropicais ao pôr do sol; mas o firmamento tropical, à noite, sobre o oceano é a coisa mais maravilhosa do mundo”.
Sentiam os amigos que nele havia um grande gênio mal aproveitado, e em certos momentos expressavam a cínica esperança de que lhe ocorresse alguma coisa que lhe permitisse ter tempo suficiente à sua composição.
Nalgumas poucas ocasiões apenas lograram as realidades amargas da vida interromper-lhe os sonhos deliciosos da fantasia.
Tudo isso, no entanto, nada trouxe senão enleio para o pequeno conservador que sonhava os seus sonhos encantados. Foi-lhe restituído o cargo de professor e ele pôde, mais uma vez, deslizar para a serenidade dos sonhos depois do mergulho repentino e atemorizador no pesadelo da realidade.
E assim, a sonhar, escreveu mais uma ópera encantada, e recolheu-se depois ao sono sem sonhos.
Convidou Tchaikovsky a visitá-la em sua ausência, a examinar os seus livros e a considerar os seus quadros, de sorte que, ao voltar, sentisse ela a atmosfera impregnada da personalidade dele.
Tchaikovsky, porém, que era a alma mais delicada da terra, sabia defender com firmeza os seus direitos. “Perdoe-me, querida amiga, e ria-se da minha esquisitice. As nossas relações, no pé em que estão, constituem a minha maior felicidade e a rocha sobre a qual repousa todo o meu bem estar. Não desejo fazer-lhe a menor alteração”.
Durante quarenta e oito horas “bebeu ela toda a magnífica beleza da melodia, recusando-se a comer ou a beber”.
Possuía-o, de vez em quando, uma fúria quase assassina. “Já sei”, escreveu ele sinistramente, “como um homem, não sendo mau por natureza, pode converter-se num criminoso!”. Voltaram-lhe as antigas crises de nervos – a insônia, a perda de peso, as cãibras cardíacas, os pesadelos.
A ideia de que não valho nada, de que somente o meu trabalho musical me redime dos meus defeitos principia a oprimir-me e torturar-me. A única maneira de subtrair-me a essas dúvidas atormentadoras e a essas autoflagelações consiste em encetar novo labor. Só o meu trabalho pode salvar-me.
“As palavras são inúteis para descrever a emoção que me avassala quando concebo uma nova ideia e esta principia a tomar forma definida”.
Tchaikovsky, porém, confessou ingenuamente que tinha medo aos outros. “Durante toda a minha vida os contatos sociais me fizeram sofrer”. Não sabia definir com exatidão o que havia nos outros que tanta angústia lhe causava, mas o caso é que a sociedade o atormentava. Confessava saber quanto lhe minguara as oportunidades de êxito essa timidez. Mas desistira da luta. “De fato, agora que posso esconder-me em minha toca e ser sempre eu mesmo, visto que os livros e a notação musical são hoje meus únicos companheiros, sinto-me perfeitamente feliz”.
É a única pessoa no mundo que me pode fazer profundamente feliz. E expressou o desejo de toda a sua alma de que jamais se alterasse, jamais terminasse o que quer que inspirasse o seu afeto por ele, “porque uma perda dessa ordem seria, para mim, insuportável”.
Terminava a carta com umas poucas palavras casuais, totalmente destituídas de calor: “Não esqueça, e pense em mim de vez em quando”. O tom dessa carta petrificou-o. “Poderei, porventura, esquecer tudo o que você fez por mim, tudo o que sua amizade significou para mim e para minha música?”
“Estou perturbado demais para escrever com clareza”.
“Isso, porém, aconteceu e toda a minha confiança nas pessoas, toda a minha fé no mundo se extinguiram. Foi-se-me a paz e toda e qualquer felicidade que o destino possa haver-me reservado está empeçonhada para sempre”. Esta última carta nunca teve resposta.
Alguma força irresistível tomara conta dele... Uma ansiedade profunda e inexplicável, um desespero que pedia o esquecimento às distrações, onde quer que fosse...
Tão lindas eram as suas melodias que lhe haviam arrancado lágrimas dos olhos. A Sinfonia Patética foi a última coisa que ele escreveu. Era o testamento em que legava ao mundo a chama do seu gênio e a beleza da sua cor.
Durante quatro dias agonizou e, no quinto, encontrou o repouso. Fim estranho de uma estranha existência. Um gênio a quem o Destino havia dado os sons de um deus e a quem negara as energias de um homem. Quais teriam sido os verdadeiros pensamentos de tão triste e incongruente personalidade?
Não se lhe detinham os olhos nas mulheres nem os ouvidos ouviam ternos murmúrios de amor. Dizia-se que ele tinha medo ao amor, à amizade, a todo e qualquer contato humano. Ele era só porque era grande, como uma estátua colocada sobre um pedestal, que pudesse olhar por cima das cabeças da multidão, mas não pudesse descer para sentir o contato de uma mão humana. Pode uma estátua inspirar veneração, mas não pode exigir amor.
Algo melancólico é verdade, mas a própria melancolia lhe quadrava ao melancólico temperamento.
Ao sabor das ondas, no mar dos sons, sem encontrar à vista a seguridade de um porto.
Tchaikovsky, não raro, sentia possuí-lo uma sensação esquisita quando caminhava pelas ruas ou regia no Conservatório. Dir-se-ia que a cabeça estivesse prestes a cair-lhe dos ombros. Era um caso mau de nervos. Cãibras cardíacas, dores de cabeça e crises de indigestão.
No Conservatório, era tido por um enigma. Não obstante, mostrava-se sempre um gentil homem, embora frio, aristocrático e distante. Contudo, continuava a ser, como sempre, infeliz. Dizia-se mal dele, que era esquisito, que era incapaz de amar normalmente uma mulher.
Far-lhe-ia bem o casamento se lograsse encontrar a mulher que lhe conviesse. E enquanto Tchaikovsky se entretinha em procurar essa mulher, a mulher o encontrou. Era uma criaturinha moça, atraente, histérica e agressiva. Peter cedera, unicamente por fraqueza, avisando-a de que a não poderia amar, de que era pobre, insociável, irritável por natureza e intratável. Casaram-se e, por um momento, Tchaikovsky foi feliz.
“Sem embargo, olho para tudo isso com a mais profunda repugnância”. O grito medonho continuava a espancar-lhe o ouvido interior: “Sou um anormal!”. Precipitou-se para fora do apartamento e pôs-se a correr cegamente pelas ruas escuras da cidade. Quando deu por si estava à beira do rio Moscóvia. Penetrou as águas geladas, até a cintura, e retornou depois, cambaleante, a casa, anelando por apanhar uma pneumonia e morrer. “Ele acaba de passar por uma tensão muito grande. Qualquer coisa o abalou terrivelmente”. Mandaram-no para um sanatório. “Com a ajuda de Deus você recobrará a saúde... A música volverá a interessá-lo e a encher a sua vida”.
Mas Peter é que a havia escrito e, portanto, não podia ser senão uma melodia vinda de Deus.
Quando um homem põe toda a alma num trabalho espera que sejam reconhecidos os seus esforços. ”Não há nela uma única frase que eu não tenha sentido profundamente: todas as suas notas são outros tantos ecos da parte mais sincera da minha natureza”.
À medida que o nosso desespero se torna cada vez mais forte, buscamos fugir à realidade e mergulhamos na ilusão dos sonhos... A pouco e pouco os nossos sonhos senhoreiam-se da alma. A vida de Tchaikovsky era uma alternância de fantasia e realidade, de ventura e angústia. Estados exultantes de espírito quando compunha a sua música, ideias de suicídio quando obrigado a enfrentar o mundo.
Não há de o homem, contudo, enrodilhar-se para sempre aos próprios sofrimentos. Momentos há em que é bom fugirmos de nós mesmos, esquecermos as tristezas passadas e as esperanças futuras, e vogarmos, impessoalmente, fora do tempo e do espaço, sentindo, em vez de emoções definidas, uma sucessão de caprichos arabescos, essas imagens intangíveis que nos perpassam no espírito.
"Se não podes encontrar alegria dentro em ti mesmo, procura-a nos outros”. Vê – vê como ele sabe aproveitar, da melhor maneira possível, seu tempo. Se o prazer não é dado a Tchaikovsky, fuja ele aos sombrios pensamentos e observe como os outros se entregam ao prazer. “Vê como são alegres os demais! E quanta ventura existe em ser-se guiado por sentimentos tão simples”. A gente só pode sobrepujar a tristeza do próprio destino, regozijando-se das alheias alegrias.
Via com presteza as próprias deficiências e, com a mesmo presteza, as deficiências alheias.
Ao sair de uma sala numa de suas noites mais sarcásticas, inclinou-se, irônico, e disse: “Se há alguém nesta sala que esqueci de insultar, peço-lhe que me perdoe a inadvertência”. A grosseria, contudo, era nele, como vimos, o reverso apenas do sentimentalismo. A sua música, como o seu temperamento, ocultavam uma alma terna dentro de um corpo de granito.
Brahms era um estudo de contrastes. E desses contrastes o maior, porventura, era o que existia entre o desalinho da aparência e a precisão do espírito. Parecia, exteriormente, levar uma vida desordenada. Interiormente a sua existência era uma unidade perfeita. Reconhecendo com absoluta segurança os verdadeiros valores, extremava-se como uma pessoa negligentemente perfeita em sua arte e perfeitamente negligente em seus hábitos pessoais. Sua preguiça física era unicamente consequência de sua intensa vida mental.
Ele percebia os próprios erros e desvelava-se por corrigi-los. A meticulosidade transformou-se nele numa quase mania.
Um estudo de contraste – triste enigma humano.
Próximo ao coração trazia também o mais estranho dos seus filhos – um sujeito mal humorado, tempestuoso e gigantesco. E havia ainda a encantadora donzela.
A sua saúde de ferro estava fraquejando. Não obstante, baqueou-lhe o corpo sem aviso prévio. Disseram os médicos que sua doença era um câncer, e antes que ele pudesse volver em si da surpresa, tudo se acabou.
“Eu não havia sequer começado a expressar-me”, lastimou-se ele em seu leito de morte. Mas ele, talvez, tenha levado consigo, para um público novo e maior, a música que não deixara escrita.
Os fados escolhem, não raro, incôngruos sítios de nascimento e pais estranhos para o gênio.
A história misteriosa do impulso humano para a expressão divina principiou, no caso de Johannes, em idade precoce. Johannes principiou a estudar piano e foi logo saudado como uma espécie de criança prodígio.
Dir-se-ia que a sua alma delicada viria a sufocar-se naquele ambiente. Ele, porém, desafiou o destino. E depois, improvisamente, no espaço de uns poucos meses, penetrou as regiões do gênio reconhecido.
Joaquim ouviu a música e reconheceu, incontinenti, estar em presença do gênio.
Aquilo era um desafio ao seu gênio.
Clara Schumann era uma mulher nobre, bela e prendada na idade em que as mulheres são mais capazes de influir nas almas de jovens suscetíveis. E Brahms era extremamente suscetível.
E, como se o diabo quisesse meter o bedelho na história, Schumann foi acometido de uma enfermidade nervosa e internado em um hospício, do qual nunca mais saiu vivo. O grande espírito, curvado debaixo do peso do gênio e da decepção, nunca pode, senão em raros intervalos, encontrar o caminho que o fizesse sair do nevoeiro.
“Estou descobrindo um sentido de beleza, não acha?”, perguntou-lhe ele, um belo dia. “Quando a gente vê uma mulher bonita durante muito tempo, uma mulher que é, ao mesmo tempo, graciosa, terna e pura, não pode deixar de sentir-se inspirado diante do espetáculo”.
E o jovem, cheio de tristeza diante das ruínas do que fora, outrora, seu amigo, sentia que lhe passava pela cabeça amarga e tempestuosa torrente de melodia.
Aos olhos do jovem Johannes convertera-se numa deusa, que lhe ensinava, todos os dias, a extasiar-se diante na natureza do verdadeiro amor e que lhe mostrava, a todos os momentos, a beleza da abnegação. Os elementos da sua paixão precipitaram-se num ímpeto vesano.
O Décimo Primeiro Mandamento: Subjulga a tua paixão. “A paixão não é natural na humanidade; é sempre uma exceção, uma excrescência”. “Sê calmo na alegria; sê calmo na aflição”.
Continuaram amigos íntimos e ternos e silenciosos guardiães das suas recordações.
Sê calmo na paixão. Elimina-a! Toda vez que chegava a ponto de perder o coração, adicionava-se uma nova passagem imortal ao rol de suas músicas. Os psicólogos modernos chamarão a isso sublimação. Brahms chamava-lhe a tradução da emoção em canto.
Ele atingira então o domínio completo da sua arte.
E como se quisesse acrescentar um novo símbolo ao seu caráter de eremita, deixou crescer a barba que, com o tempo, se tornou branca e majestosa.
Mesmo enquanto jovem, antes de se lhe confinarem os hábitos de solteirão, demonstrara o mesmo relaxamento no tocante à aparência física.
Raramente, porém, aparecia em publico.
Lá chegando, não encontrava uma cadeira sequer para sentar, pois estavam todas cobertas de livros e folhas de música.
E sonhava sonhos que não haviam sido permitidos a mais ninguém desde o tempo de Beethoven.
Nas fórmulas matemáticas de Bach, librara-se a beleza à espera do filosofo que, libertando-a, lhe permitisse subir aos céus. Os músicos cientistas haviam edificado maciços mausoléus de granito sem janelas, e os músicos poetas tinham construído janelas frágeis de vidro coloridos, mas sem armação sólida que as sustentasse. Foram precisos os filósofos da música, homens como Beethoven e Brahms, a fim de erguer casas para os vivos e não para os mortos – mansões ao mesmo tempo sólidas e cheias de ar, de vitalidade e de imorredoura beleza.
Ele não era um mau menino, mas não cuidava das lições. Escrevinhava música em todos os cantos dos livros de latim. Cantarolava trechos de óperas quando o professor procurava explicar um problema de aritmética.
Havia o que quer que fosse de místico na atmosfera romana e isso tocou, dentro dele, uma corda sensível, pois havia também em sua alma profunda tendência para o misticismo.
Além do seu amor à música, adquirira Gounod outra paixão – a paixão da pintura.
“Ainda imaturo, mas possuído de entusiasmo romântico e apaixonado...”.
Desalentado pelo fracasso no teatro, escreveu duas sinfonias e tornou a mergulhar no misticismo.
Havia de ser um tema mundano que tivesse, ao mesmo tempo, fundo religioso – história de paixão e compaixão, poema épico de pecado, sofrimento e redenção, debuxo panorâmico da miséria da Terra, do castigo do Inferno, da glória do céu.
Duas das mais preciosas joias do fulgurante colar dessa música.
E cada manhã, ao despontar do sol, viam os camponeses o estranho misterioso a caminhar pela margem do rio, um homem de meia idade, a barba grisalha, trazendo, nos olhos, uma expressão distante. Voltava sempre dos passeios com ramos de flores nas mãos e grinaldas de música na cabeça.
Sempre que ele tocava para ela, rompia Georgina numa tempestade de lágrimas, chamando-lhe o seu mestre, a sua inspiração, o seu deus.
Esmagado por esse golpe, recolheu-se de novo o compositor ao seu misticismo. E, desta feita, permaneceu místico até o fim.
Antes de morrer, encetou novo trabalho religioso, um Réquiem. Nunca, porém o terminou. Uma tarde, no outono de 1893, ao sentar-se para trabalhar, caiu-lhe a cabeça sobre a mesa. “Psiu”, disse a esposa aos demais membros da família, “não o perturbemos. Ele está dormindo...”.
“A morte”, dissera ele, “é o princípio da vida”.
Essa existência de trabalhos sem folguedos converteu-o num rapaz melancólico, se bem não o tornasse apagado. Desde a mais tenra infância nunca soube o que fosse estar livre de preocupações.
Nessa ocasião, entretanto, Verdi não estava disposto a pensar em música “engraçada”, pois as desventuras tinham principiado a acumular-se-lhe sobre a cabeça.
“Isto”, escreveu Verdi alguns anos depois, “foi apenas o principio das minhas aflições. Em abril (1840) o meu filhinho adoeceu; e antes que os médicos acertassem diagnosticar a enfermidade, morreu nos braços da mãe desconsolada. Como se isto não bastasse, minha filhinha adoeceu também alguns dias depois e, por seu turno, também morreu. E como se isto ainda não fosse suficiente, a minha pobre mulher foi tomada de violenta inflamação do cérebro e, no dia 3 de junho, um terceiro caixão deixou a minha casa... E no meio de todas essas angústias terríveis eu tinha de escrever uma ópera cômica!”.
Em virtude “do castigo dos deuses e da crueldade dos seus semelhantes”, Verdi viu-se tentado, durante algum tempo, a entregar-se ao desespero. “Eu estava só, completamente só!...”.
“Voa, esperança minha, sobre asas de outro”.
“Não creio que o senhor a tivesse escrito se houvesse seguido os ditames do coração. Mas o senhor vive entre pessoas que padecem do hábito de espreitar o que fazem os vizinhos e de condenar toda e qualquer ação que não se lhe ajuste aos padrões de proceder. Tenho por hábito não interferir na vida dos outros, mas espero que os outros não interfiram na minha...”.
Diferiam particularmente nos pontos de vista sobre religião. Giuseppina era católica devota, e Verdi, agnóstico. Ambos, porém, cressem ou não, possuíam a graça divida da tolerância.
Há algumas naturezas virtuosas para as quais a fé em Deus é necessária; outras, igualmente perfeitas, são mais felizes não acreditando em nada.
E Verdi, assim como Giuseppina, compreendiam que a união perfeita consistia na harmoniosa combinação dos dois caracteres opostos. Não, opostos não, suplementares.
“Verdi”, refere Giuseppina à amiga, “virou arquiteto...”.
Não era Verdi um sonhador cujo espírito vogasse acima das realidades da vida.
Verdi foi um desses raríssimos seres humanos – um gênio supremo que conseguiu, em vida, tornar-se um homem extraordinariamente rico.
Surgira-lhe na música uma nota nova – nota de piedade pelos sofrimentos dos seus semelhantes. Abrandara-se a rebelião em tristeza e a dor substituíra a esperança. A vida, quando muito, era patética – um ansiar pelas estrelas e um revolver-se no pó. Todo drama humano, seja qual for o seu curso, há de chegar a um fim trágico.
Aïda é a demonstração prática do credo de Verdi segundo o qual a música não deve apenas acompanhar a par e passo as palavras, senão, penetrando-as, atingir as sutilezas do pensamento que reside atrás delas. O espírito feito carne, a alma da música insuflada no corpo da poesia.
Nunca até então fora o gênio de Verdi desafiado por libretos de técnica tão magistral e tão viva inspiração. E ele se mostrou a altura do desafio. Mantivera-se sempre afastado dos outros – temeroso das suas crueldades e indiferente ao seu aplauso. O mundo deixava-o para trás e atirava-se para frente sem ele.
Assim se despediu Verdi do mundo. “Perdi muitas das pessoas que eu amava, e o pesar resistiu à resignação. Até agora, no entanto, nunca senti tamanho ódio à morte e tanto desprezo pela sua força misteriosa, cega, estúpida, triunfante e infame”.
Um amigo perguntou-lhe certa vez, qual dentre as suas obras julgava a melhor. E foi a seguinte a resposta de Verdi: “Minha melhor obra foi a dotação que fiz a uma casa para músicos pobres, em Milão”.
Desde a mais tenra infância, manifestou ilimitada confiança em si mesmo, absoluto desdém aos outros e espantoso talento para a poesia e para a música.
Sem bem fosse, musicalmente, um autodidata, tinha absoluta certeza da sua habilidade em assombrar e conquistar o mundo.
Infelizes são os que o destino liga à roda impetuosa do gênio.
Wagner oferecia beleza ao mundo e esse recompensava-o com desdém.
Carregassem os outros a coroa de espinhos para que eu pudesse receber a recompensa da glória.
Um homem com a sua excitabilidade interior, dizia, necessitava de “assistência mental” – almas irmãs que lhe compreendessem a música e que lhe pudessem inspirar os “mais supremos esforços”. Pode ser que, sob o aspecto artístico, fosse justificável a crueldade dessa atitude. É possível que ele precisasse desse néctar de paixão para alimentar as suas ardentias criadoras.
Música significa para o mundo; frias consolações para as vítimas dessa gloriosa música.
“Sou diferente dos outros homens”, dizia. “O mundo deve dar-me o que preciso”.
A moeda de ouro do meu cérebro em troca do vil metal dos bolsos deles.
Em todas as suas disputas – e estas não lhe faltavam – estava Wagner convencido de que estava absolutamente certo e todos os demais absolutamente errados.
Wagner acreditava – e tinha o direito de acreditar – que viera ao mundo para fabricar músicas sublimes. O sofrimento, a pobreza, as enfermidades – nada conseguia desviá-lo da tarefa que se impusera.
O passo seguinte havia de ser “a música fertilizada pela poesia”. “As palavras só”, asseverava, “não logram expressar a espécie mais alta de poesia. As palavras são as raízes, e a música, a flor”.
À semelhança do que ocorre nos quadros de Leonardo, as personagens humanas de Wagner constituem tão somente parte da intrincada trama natural que ele coloca na tela do seu teatro. Nesse particular seguiram, ao mesmo tempo, Leonardo e Wagner a técnica do Grande Artista Músico, visto que no drama musical do universo a vida do homem representa apenas uma nota.
O espírito de Wagner, no entanto, continuou irrequieto como sempre.
De quando em quando empanavam o brilho dos seus últimos dias a sobrançaria de sua cólera jupiteriana e o trovão de sua controvérsia.
Era uma criatura surpreendente – um homem dotado de tão imenso gênio e de não pequena insânia.
Wagner não pensa, por um minuto sequer, em ninguém, a não ser em si mesmo.
Quando excitado, saiam-lhe as palavras aos gritos; os seus discursos satirizavam ao acaso. Semelhava, nessas ocasiões, alguma força elementar desencadeada... A menor contradiçãozinha provocava nele fúria incrível.
Aproximavam-se dele, um por um, depositavam os corações diante do relicário do seu gênio e depois se afastavam, silenciosos. Nos últimos dias de sua vida ele se viu praticamente só.
Mas quando caiu morto, uma personalidade única deixou o mundo – uma criança travessa que aprendera a conversar com os deuses.
Era um corpinho enfermiço, etéreo e apaixonado, que se diria delicado demais para uma criança mortal.
Quando os Liszt chegaram à capital da Áustria (em 1821), Franz contava apenas dez anos de idade, embora já tocasse com a técnica e emoção de um virtuoso adulto.
“Você deve agradecer à sua estrela”. “Nunca vi, em toda a minha vida, talento igual para a memorização”.
Ele senta ao piano. Entreolharam-se, pasmados, os membros da orquestra. “Mas esse menino é tão bom quanto Mozart!”.
Foi para todos uma grande surpresa encontrar Beethoven lá, pois, ao receber o ingresso para o concerto, lançara-o de si, resmoneando: “Estou farto de crianças prodígio”. Todavia, lá estava ele, imóvel na sua cadeira, os lábios muito apertados. Claro está que não lhe era possível ouvir uma única nota, pois já a esse tempo a sua surdez era praticamente completa. Não obstante, continuou a fitar os olhos na criança, impassível, o cenho carregado, distante como um deus. Terminado o concerto, abeirou-se da plataforma, tomou Franz entre os braços de urso e disse-lhe, beijando-o a testa: “Meu filho, você ainda será, um dia, um verdadeiro músico”. Esse elogio de Beethoven foi uma das mais queridas recordações da infância.
Que dedos quentes e palpitantes, que olhos ardentes e perturbadores! Já em sua infância sentia Franz que, depois da sua música, o sorriso de uma mulher bonita era a coisa mais irresistível do mundo.
Conseguiu, entretanto, tornar-se aluno de Paer e continuou, debaixo da orientação deste último, o meteórico progresso em direção ao pináculo do virtuosismo contemporâneo.
No momento, contudo, em que as suas mãos roçaram o piano, transformou-se. Já não era uma criança que tocava, mas a própria encarnação do Espírito da Música.
Nunca foi criança alguma dotada de tamanho gênio. Nunca houve criança alguma tão sequiosa por brincar.
Tentativas de suicídio. Tensões de ordenar-se. Leitura de livros amargos de Byron e Voltaire. Uma longa e crítica enfermidade. Depois, emergiu Liszt como o favorito fascinador, brilhante, temerário, cínico e irresistível dos salões franceses.
O homem mais elegante de Paris, e o maior pianista do mundo, foi pintado, modelado e elogiado pelos principais artistas, escultores e poetas.
A orquídea de seu gênio crescia ao influxo dos aplausos. Orquídea de deslumbrante beleza como raramente havia visto o mundo. O seu virtuosismo artístico e mental seduzia não só as mulheres mais encantadoras senão também os homens mais brilhantes de Paris. Era um jovem deus irrequieto esse músico sempre em busca de novos triunfos, esse amante sempre à cata de novas aventuras.
Ocorreu, por fim, uma aventura que lhe trouxe uma taça de vinho de múltiplos sabores – excitamento, romance, paixão, alegria, desilusão e sofrimento. Mas não lhe trouxe a paz. Porque não pertencia ao tempestuoso temperamento de Franz Liszt experimentar jamais as bênçãos da paz.
Heine asseverara-lhe que tal conquista seria impossível, visto que ela trazia encerrado o coração em diversas polegadas de gelo.
Não lhe sobrava tempo, entretanto, para os sonhos maiores da sua imaginação, pois gastava-o todo com Wagner, o obscuro titã cujas visões pairavam acima da compreensão das massas.
Havia agora em sua execução uma nota nova – a nota do sofrimento, do desafio, da rebelião contra as pompas vãs do mundo.
Ele era apenas um estorvo para os netos, para a filha, para si mesmo. Nada mais lhe restava senão esperar pacientemente pela morte. Era tarde demais. Morria. Mas as contas afinal, não estavam tão más assim. Porque, ao cerrarem-se-lhe os olhos, Cósima apertava a mão entre as dela.