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segunda-feira, 23 de julho de 2012

J. Brahms - Continuação

Via com presteza as próprias deficiências e, com a mesmo presteza, as deficiências alheias.
Ao sair de uma sala numa de suas noites mais sarcásticas, inclinou-se, irônico, e disse: “Se há alguém nesta sala que esqueci de insultar, peço-lhe que me perdoe a inadvertência”. A grosseria, contudo, era nele, como vimos, o reverso apenas do sentimentalismo. A sua música, como o seu temperamento, ocultavam uma alma terna dentro de um corpo de granito.
Brahms era um estudo de contrastes. E desses contrastes o maior, porventura, era o que existia entre o desalinho da aparência e a precisão do espírito. Parecia, exteriormente, levar uma vida desordenada. Interiormente a sua existência era uma unidade perfeita. Reconhecendo com absoluta segurança os verdadeiros valores, extremava-se como uma pessoa negligentemente perfeita em sua arte e perfeitamente negligente em seus hábitos pessoais. Sua preguiça física era unicamente consequência de sua intensa vida mental.
Ele percebia os próprios erros e desvelava-se por corrigi-los. A meticulosidade transformou-se nele numa quase mania.
Um estudo de contraste – triste enigma humano.
Próximo ao coração trazia também o mais estranho dos seus filhos – um sujeito mal humorado, tempestuoso e gigantesco. E havia ainda a encantadora donzela.
A sua saúde de ferro estava fraquejando. Não obstante, baqueou-lhe o corpo sem aviso prévio. Disseram os médicos que sua doença era um câncer, e antes que ele pudesse volver em si da surpresa, tudo se acabou.
“Eu não havia sequer começado a expressar-me”, lastimou-se ele em seu leito de morte. Mas ele, talvez, tenha levado consigo, para um público novo e maior, a música que não deixara escrita.




Eu, Álison

domingo, 22 de julho de 2012

J. Brahms

Os fados escolhem, não raro, incôngruos sítios de nascimento e pais estranhos para o gênio.
A história misteriosa do impulso humano para a expressão divina principiou, no caso de Johannes, em idade precoce. Johannes principiou a estudar piano e foi logo saudado como uma espécie de criança prodígio.
Dir-se-ia que a sua alma delicada viria a sufocar-se naquele ambiente. Ele, porém, desafiou o destino. E depois, improvisamente, no espaço de uns poucos meses, penetrou as regiões do gênio reconhecido.
Joaquim ouviu a música e reconheceu, incontinenti, estar em presença do gênio.
Aquilo era um desafio ao seu gênio.
Clara Schumann era uma mulher nobre, bela e prendada na idade em que as mulheres são mais capazes de influir nas almas de jovens suscetíveis. E Brahms era extremamente suscetível.
E, como se o diabo quisesse meter o bedelho na história, Schumann foi acometido de uma enfermidade nervosa e internado em um hospício, do qual nunca mais saiu vivo. O grande espírito, curvado debaixo do peso do gênio e da decepção, nunca pode, senão em raros intervalos, encontrar o caminho que o fizesse sair do nevoeiro.
“Estou descobrindo um sentido de beleza, não acha?”, perguntou-lhe ele, um belo dia. “Quando a gente vê uma mulher bonita durante muito tempo, uma mulher que é, ao mesmo tempo, graciosa, terna e pura, não pode deixar de sentir-se inspirado diante do espetáculo”.
E o jovem, cheio de tristeza diante das ruínas do que fora, outrora, seu amigo, sentia que lhe passava pela cabeça amarga e tempestuosa torrente de melodia.
Aos olhos do jovem Johannes convertera-se numa deusa, que lhe ensinava, todos os dias, a extasiar-se diante na natureza do verdadeiro amor e que lhe mostrava, a todos os momentos, a beleza da abnegação. Os elementos da sua paixão precipitaram-se num ímpeto vesano.
O Décimo Primeiro Mandamento: Subjulga a tua paixão. “A paixão não é natural na humanidade; é sempre uma exceção, uma excrescência”. “Sê calmo na alegria; sê calmo na aflição”.
Continuaram amigos íntimos e ternos e silenciosos guardiães das suas recordações.
Sê calmo na paixão. Elimina-a! Toda vez que chegava a ponto de perder o coração, adicionava-se uma nova passagem imortal ao rol de suas músicas. Os psicólogos modernos chamarão a isso sublimação. Brahms chamava-lhe a tradução da emoção em canto.
Ele atingira então o domínio completo da sua arte.
E como se quisesse acrescentar um novo símbolo ao seu caráter de eremita, deixou crescer a barba que, com o tempo, se tornou branca e majestosa.
Mesmo enquanto jovem, antes de se lhe confinarem os hábitos de solteirão, demonstrara o mesmo relaxamento no tocante à aparência física.
Raramente, porém, aparecia em publico.
Lá chegando, não encontrava uma cadeira sequer para sentar, pois estavam todas cobertas de livros e folhas de música.
E sonhava sonhos que não haviam sido permitidos a mais ninguém desde o tempo de Beethoven.
Nas fórmulas matemáticas de Bach, librara-se a beleza à espera do filosofo que, libertando-a, lhe permitisse subir aos céus. Os músicos cientistas haviam edificado maciços mausoléus de granito sem janelas, e os músicos poetas tinham construído janelas frágeis de vidro coloridos, mas sem armação sólida que as sustentasse. Foram precisos os filósofos da música, homens como Beethoven e Brahms, a fim de erguer casas para os vivos e não para os mortos – mansões ao mesmo tempo sólidas e cheias de ar, de vitalidade e de imorredoura beleza.




Eu, Álison

segunda-feira, 16 de julho de 2012

R. Schumann

Um duplo talento despertara nele prematuramente – um dom para a literatura e um dom para a música.
Surpreendera o olhar da amada num arco-íris lunar e imaginou ouvir-lhe o riso da brisa ao dançar sobre um lago perdido entre as montanhas. "Nesse momento aprendi a ideia sublime da Divindade".
Robert voltava-se amiudadas vezes para o teclado quando sentimentos profundos demais para lágrimas – e palavras – se lhe agitavam no cérebro.
Era sujeito a intensos acessos de melancolia. Escreveu à mãe, referindo-lhe as suas desventuras, num estilo calculado para apertar-lhe o coração. “Se eu, ao menos, tivesse aqui alguém que me compreendesse direito e com simpatia e que tudo fizesse por mim em virtude de um amor puro e desinteressado que me dedicasse!”.
“Emociono-me com demasiada facilidade”, queixava-se ele.
“Nem posso matar-me, a despeito do meu desespero, porque me falta o dinheiro suficiente para adquirir uma pistola”.
Eram os seus dias uma série de estados de espírito que flutuavam violentamente entre o êxtase e o desespero.
Além disso, repartira o tempo entre a música e a poesia. Expressava-se igualmente bem com o piano e com a pena, o que, aliás, representava para ele, de certa maneira, uma fonte de fraqueza. “Se ao menos o meu talento para a poesia e para a música se concentrasse num ponto único, a luz não se ofuscaria tanto assim...”.
Na amizade do gênio o prato da familiaridade é condimentado com o sal do respeito.
“Sentimentos estranhos agitavam-me o coração...”. “Permiti que essa noite, ao menos, se passe sem que eu perca a razão!”
Nessa altura, Schumann desfaleceu. Durante toda a vida obcecara-o a ideia de que estava perdendo a razão. Referia-se ao “lado obscuro” da sua vida, manifestava o desejo de divulgar, algum dia, o segredo de uma “grave enfermidade psíquica” de que padecera. Um dia, ele teria a “chave” de todas as suas ações, “de toda a minha estranha natureza”.
“Poderá o jovem Schumann edificar uma catedral de ideias musicais?”.
Essa infâmia abateu a natureza sensitiva de Schumann.
Schumann não era homem com quem se lidasse facilmente. Era distraído, sem cerimonioso, arrebatado, irresoluto e caprichoso com o vento. Inclinado à melancolia, acreditava que o casamento o curaria dos seus periódicos acessos de tristeza.
Referia-se, repetidamente, à sua boa fortuna de possuir “uma esposa à qual estou ligado pela arte, pela afinidade mental, pelo hábito de muitos anos de amizade e pelo mais profundo e mais sagrado amor...”.
O meu respeito pelo gênio de Robert, pela sua inteligência e pelos seus dons de compositor aumenta com cada uma de suas obras.
Padecia, continuamente, de acessos de melancolia e fazia viagens frequentes ao campo para tratar da saúde. Com os nervos tensos e a ponto de arrebentar, tinha medo da morte e tinha medo da vida.
Para Schumann, porém, valia o oferecimento como escápula temporária às algemas do desespero.
Era um homem de poderosas emoções e dificuldade de expressão. “Quando os meus pensamentos são mais eloquentes”, lamentava-se, “é quando me vejo mais incapacitado de falar”.
Excesso de gênio, carência de talento. Tal era o paradoxo daquele homem, que padecia da excitabilidade nervosa provocada por um cérebro demasiado fértil. Essa excitabilidade nervosa trouxe-lhe, de um lado, o fardo das aflições e, de outro, o condão de cantar.
Pouco depois, decompunham-se as notas num milhar de sons majestosos. Que maravilha! Brilhavam-lhe nos olhos visões do paraíso. “Sofro maravilhosamente”.
Uma bela manhã, saltou da cama dizendo que os anjos lhe estavam cantando um tema que ele precisava copiar. Saiu depois impetuosamente de casa e precipitou-se no Reno. Foi salvo e mandado para um hospício.
Tal foi a tragédia de seu espírito. O artista hipersensitivo vivera uma vida de frustração mental. Não poderia ser feliz o final dessa historia de um gênio tão poderoso com tão limitadas oportunidades de expressão, vulcão ativo de música peado pelas cinzas de um mundo desatento. Havia, forçosamente, de explodir.
Durante dois anos arrastou-se ele no meio dessa morte viva. Vivia num mundo de música divina – aquelas harmonias celestiais que lhe roubavam o repouso.
A luz do sol é apenas uma lembrança irrisória na treva da tormenta.
No instante, porém, em que ela se ergueu, ele a beijou. O beijo instintivo, confiante e indefeso de uma criancinha.





Eu, Álison