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sábado, 18 de maio de 2013

E assim foi escrito

Vou morrer hoje. Um buraco de terra granulada me aguarda. Um final justo para um homem consumido pela morte a vida inteira. Aceite esse beijo na testa.


Não sei, fiquei meio louco.

- Senhor, é Edgar Poe, não é verdade?
- Sou... Por mais alguns minutos... Senhor ajude minha pobre alma.

Aceite este beijo na testa.
e, partindo de ti agora,
muito a dizer nesta franca hora
Você não está errado, quem diria
que meus sonhos têm sido o dia;
Ainda se a esperança fosse um açoite
em um dia, ou numa noite,
numa visão, ou em ninguém
É isso então o que está aquém?
Tudo o que vejo, tudo o que suponho
É só um sonho dentro de um sonho.

As ondas quebram e fico ao meio
de uma praia atormentada
e eu seguro em minhas mãos
uns grãos de areia dourada -
Quão poucos! E como se vão
Pelos meus dedos para o nada,
enquanto eu choro, enquanto eu choro!
Ó Deus! Eu Vos imploro:
Não posso mantê-los em minha teia?
Ó Deus! Posso eu proteger
das duras ondas um grão de areia?
Será que tudo o que vejo e suponho
É só um sonho dentro de um sonho?






Eu, Álison

sexta-feira, 8 de março de 2013

Quem não sabe tocar o intangível

Não é poeta. Ando com os nervos à flor da pele, mas por que insistis que sou louco?

Fiel a si mesmo, Poe existiu em desacordo social. No senso da arte, avançou a ponto de provocar a contestação que hoje ainda, cá e ali, comicamente se repete. Mas ele não tinha mesmo uma impressão otimista sobre os homens. Por ver a verdade nos sonhos, imaginava de antemão não poder transformar a vida cotidiana para melhor. Segundo Poe, o ser humano, ao contrário do estabelecido por Jean-Jacques Rousseau, nasce marcado pelo mal.


"Será sempre difícil exercer, de forma ao mesmo tempo nobre e frutífera, a condição do homem de letras sem se expor à difamação, à calúnia dos impotentes, à inveja dos ricos - inveja que é o castigo deles! -, às vinganças de mediocridade burguesa" escreveu Baudelaire.
Para Poe, e também para Baudelaire, um conceito como beleza ainda fazia um sentido literário. Não a beleza ligada à versificação, à idealização da natureza, ao encanto dos sentimentos, mas uma beleza visceral, algo ultrajante, fabricada pelo sangue.

"Muitas pessoas já me caracterizaram como louco. Resta saber se a loucura não representa, talvez, a forma mais elevada de inteligência". - Edgar Allan Poe.






Eu, Álison

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Corvo - Edgar Allan Poe (Versão de Os Simpsons)

Era uma vez eu refletia, à meia-noite erma e sombria, a ler doutrinas de outro tempo em curiosos manuais, e exausto quase adormecido, ouvi de súbito, tal qual se houvesse alguém batido em meus umbrais. – É um visitante que vem bater em meus umbrais, é só isso e nada mais.
Ah! Claramente eu relembro! Era no gélido dezembro e o fogo agônico pintava o chão de sombras espectrais. Ansiando ver a noite finda, em vão a ler buscava ainda algum remédio a amarga infinda, atroz saudade de Lenora. Essa mais bela que a aurora, a quem
os céus chamam Lenora e nome aqui já não tem mais.
A seda rubra da cortina arfava em lúgubre sur
dina, arrepiando-me e evocando medos sepulcrais. Que de susto o coração batia e a sossegá-lo eu repetia: – É um visitante que pede abrigo e bate em meus umbrais, apenas isso e nada mais.
No momento em que me senti forte, sem hesitar lancei a sorte. – Senhor – disse eu – ou então senhora, perdoai-me se muito me esperais, mais é qu
e eu estava adormecido e foi tão débil o batido que mal podia ter ouvido alguém bater em meus portais assim de leve a horas tais. Escancarei então a porta. Escuridão e nada mais.
Alma febril, eu novamente entrei no quarto e de repente o ruído recomeça e ressoa em meus vitrais. – Com certeza – disse eu – com certeza é na janela, vamos ver o que esta nela e ao mistério dar finais. Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto. É um c
orvo hierático e soberbo, egresso entre eras ancestrais. Como fidalgo passa augusto, e sem notar sequer meu susto, adeja e pousa sobre o busto que se encontra em meus umbrais, bem sobre o pórtico e lá se instala sobre a cabeça de Palas que se encontra em meus umbrais, empoleirado e nada mais.
– Sem crista embora digo – ao corvo – não tens pavor antigo e singular amigo que na noite me pede abrigo, diga-me qual é teu nome ó nobre corvo, o nome teu no inferno torvo.
E o corvo disse: – Nunca mais.
O ar pereceu-me então mais denso e perfumado qual s
e incenso, ali descessem a espargir turibulários celestiais. – Mísero! – exclamo – enfim teu Deus me dá, mandando anjos seus a esquecimento para a saudades de Lenora. Sorve o nepentes. Sorve-o, a glória, esquece olvida essa Lenora!
E o corvo disse: – Nunca Mais.
– Sejam palavras da nossa despedida ave de agouro – ergo-me e grito – volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais! Nem leve pluma de ti reste, que tal mentira ateste, deixa-me só neste ermo agreste, sai do busto em meus portais, retira o bico que me fere o peito
, alça voo e deixa meus umbrais.
E o corvo disse: – Nunca mais.
Retira o bico que me fere o peito, alça voo e deixa meus u
mbrais.
E o corvo disse: – Nunca mais.
E lá ficou, hirto e sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio. Sobre o busto pálido de Palas, inerte, sempre em meus umbrais. No seu olhar medonho e enorme, um anjo do mal, e
m sonhos dorme e a luz da lâmpada disforme atira ao chão suas sombras imortais, nelas que ondulam sobre a alfombra, está minha alma e presa á sombra não há de erguer-se nunca mais!


 Edgar Allan Poe






Eu, Álison