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quinta-feira, 25 de abril de 2013

O meu vermelho

As janelas da alma - se é que tinha uma - eram demasiadamente medonhas para pertencerem a uma pessoa comum. Onde normalmente era encontrado um belo par de íris brilhantes, via-se como que duas esferas de vidro. Um olhar frio e macabro, diferente de tudo que já tinha visto.
De susto, o coração batia, descompassado e nervoso. O relógio, marcador ininterrupto do tempo, como se também estivesse com medo da criatura presente, parou, acabando com o único ruído que impedia que o silêncio caísse sobre meus ombros. Consigo trouxe uma sensação terrível. Aquele era o silêncio do medo. Apesar de permanecer imóvel na porta, seu rosto expressava uma parte ínfima de quanto sua mente poderia ser doentia. Nunca a presença de um estranho me perturbou tanto quanto neste momento, que parecia perpétuo devido ao que aqueles olhos me faziam sentir. Eles confrangiam meu íntimo e torciam-me de dores, apesar de não mover-me um centímetro sequer. Não tentei movimentar nem ao menos um dedo, pois minha angústia só aumentaria ao constatar o que já sabia: estava totalmente paralisado.
Dentre todos os seres humanos, o mais corajoso se renderia diante da imagem transtornada que tinha perante mim. Algo que não sei o que era. Um ente que poderia ser considerado ser, mas dificilmente, acreditava eu, um humano. Se soubesse o que ele iria fazer, não teria dúvida quanto a isso.
Desde que havia aberto a porta, observava com meus olhos aquela situação. Ele, parado, devido a sua estranha natureza. Eu, num pânico constante, mal respirava, fôlego frágil. O estranho que me olhava abrira a porta com as mãos limpas. A esquerda, mais gélida, pois tocara o metal da maçaneta. Como que hipnotizando-me, ele, num estante, aproximou-se de mim e eu, sem reação, estarrecido perante tal, não consegui mover-me. Senti sua mão fria no meu pescoço, mas não imaginei o que ele poderia fazer. O medo corria em minhas veias. Infelizmente, para mim, suas mãos não permaneceram limpas por muito tempo. Foram coloridas por um tétrico vermelho. O meu vermelho...






Eu, Álison

sábado, 15 de setembro de 2012

E eu só assisto

Não sei o que fazer,
Ele não está respirando.
Meu anjo não está respirado.
Estamos trancados,
Não sei como fugir...
Não posso pensar em uma saída,
Pois não há saída alguma.
Está piorando...
Ele não acorda.

Não há o que fazer
Ninguém quer me ajudar
Começou com receio,
Depois medo,
Depois veio o pavor,
E finalmente, o pânico,
E depois dele... Só o fim irá me salvar
Meu anjo não se meche,
Mas porque ele não se meche?
Não posso salvá-lo.
Ninguém pode.

Ainda estamos presos.
Acho que não adianta mais
Nada há mais a ser feito
Acabou.
Meu anjo não respira,
Meu anjo está no chão. Parado. Imóvel. Inerte.
No quarto onde estamos
Existem duas almas:
Uma que não respira
E outra que não quer mais respirar.





Eu, Álison

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Porque estarei com você

Quando o mundo sob meus pés sumir, quando nem ao menos as lágrimas ousarem me acompanhar, quando o céu desabar e só houver o medo, o que eu vou fazer?
Eu ouvi rumores de que você estaria lá, em um caminho iluminado, esperando por mim. E estava mesmo. Mas quando eu cheguei você não me salvou, não esclareceu minha confusão, não aliviou minha aflição e nem acalentou meu pânico. A única coisa que você me disse foi: Seque as lágrimas, porque vai piorar.






Eu, Álison

sábado, 1 de setembro de 2012

Com seus olhos que salvam

Quem tiver olhos para ver que veja. Ele está aqui, vendo todos nós com seus olhos que observam, com seus olhos que salvam, com seus olhos que amedrontam.



E faz parte dos seus planos fazer com que nem todos o vejam.





Eu, Álison

terça-feira, 12 de junho de 2012

Na contra mão

Desculpa sociedade brasileira, mas eu não ouço Mamonas Assassinas, nem Legião Urbana, nem Capital Inicial.
Também não olho o programa do Pânico que dá na televisão.
Não olho nenhuma novela, não olho Casseta e Planeta nem o Zorra Total, e sinceramente, não me acho pior do que ninguém por causa disso.


Tenho mais o que fazer!




Eu, Álison

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Corvo - Edgar Allan Poe (Versão de Os Simpsons)

Era uma vez eu refletia, à meia-noite erma e sombria, a ler doutrinas de outro tempo em curiosos manuais, e exausto quase adormecido, ouvi de súbito, tal qual se houvesse alguém batido em meus umbrais. – É um visitante que vem bater em meus umbrais, é só isso e nada mais.
Ah! Claramente eu relembro! Era no gélido dezembro e o fogo agônico pintava o chão de sombras espectrais. Ansiando ver a noite finda, em vão a ler buscava ainda algum remédio a amarga infinda, atroz saudade de Lenora. Essa mais bela que a aurora, a quem
os céus chamam Lenora e nome aqui já não tem mais.
A seda rubra da cortina arfava em lúgubre sur
dina, arrepiando-me e evocando medos sepulcrais. Que de susto o coração batia e a sossegá-lo eu repetia: – É um visitante que pede abrigo e bate em meus umbrais, apenas isso e nada mais.
No momento em que me senti forte, sem hesitar lancei a sorte. – Senhor – disse eu – ou então senhora, perdoai-me se muito me esperais, mais é qu
e eu estava adormecido e foi tão débil o batido que mal podia ter ouvido alguém bater em meus portais assim de leve a horas tais. Escancarei então a porta. Escuridão e nada mais.
Alma febril, eu novamente entrei no quarto e de repente o ruído recomeça e ressoa em meus vitrais. – Com certeza – disse eu – com certeza é na janela, vamos ver o que esta nela e ao mistério dar finais. Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto. É um c
orvo hierático e soberbo, egresso entre eras ancestrais. Como fidalgo passa augusto, e sem notar sequer meu susto, adeja e pousa sobre o busto que se encontra em meus umbrais, bem sobre o pórtico e lá se instala sobre a cabeça de Palas que se encontra em meus umbrais, empoleirado e nada mais.
– Sem crista embora digo – ao corvo – não tens pavor antigo e singular amigo que na noite me pede abrigo, diga-me qual é teu nome ó nobre corvo, o nome teu no inferno torvo.
E o corvo disse: – Nunca mais.
O ar pereceu-me então mais denso e perfumado qual s
e incenso, ali descessem a espargir turibulários celestiais. – Mísero! – exclamo – enfim teu Deus me dá, mandando anjos seus a esquecimento para a saudades de Lenora. Sorve o nepentes. Sorve-o, a glória, esquece olvida essa Lenora!
E o corvo disse: – Nunca Mais.
– Sejam palavras da nossa despedida ave de agouro – ergo-me e grito – volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais! Nem leve pluma de ti reste, que tal mentira ateste, deixa-me só neste ermo agreste, sai do busto em meus portais, retira o bico que me fere o peito
, alça voo e deixa meus umbrais.
E o corvo disse: – Nunca mais.
Retira o bico que me fere o peito, alça voo e deixa meus u
mbrais.
E o corvo disse: – Nunca mais.
E lá ficou, hirto e sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio. Sobre o busto pálido de Palas, inerte, sempre em meus umbrais. No seu olhar medonho e enorme, um anjo do mal, e
m sonhos dorme e a luz da lâmpada disforme atira ao chão suas sombras imortais, nelas que ondulam sobre a alfombra, está minha alma e presa á sombra não há de erguer-se nunca mais!


 Edgar Allan Poe






Eu, Álison