Eu, Álison
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domingo, 6 de julho de 2014
I have no wish to live
- Eu não matei aquelas quatro pessoas. Eu apenas falei com elas e depois elas se mataram.
domingo, 8 de junho de 2014
domingo, 6 de abril de 2014
O que acontece quando morremos?
- O que acontece? Nós retornamos ao lugar de onde viemos.
- Eu não me lembro do lugar de onde vim...
- Eu também não.
- Ela é tão pequena.
- Sim, é uma das coisas que acontecem. Parecemos menores.
- Ela parece estar em paz.
Trecho de "As Horas"
- Eu não me lembro do lugar de onde vim...
- Eu também não.
- Ela é tão pequena.
- Sim, é uma das coisas que acontecem. Parecemos menores.
- Ela parece estar em paz.
Trecho de "As Horas"
Eu, Álison
sábado, 22 de março de 2014
É o contraste
"Deixa-se ficar, durante horas inteiras, imóvel, com os olhos fixos no chão, com o peito oprimido e no estado de uma pessoa que teme um acontecimento sinistro. Na firma resolução de se jogar no rio, procura os lugares mais afastados para que ninguém possa vir socorrê-la".
Eu, Álison
sábado, 15 de março de 2014
Querido Leonard
Para olhar a vida de frente. Sempre... Para olhar a vida de frente, e entendê-la pelo que ela é. Finalmente entendê-la e amá-la pelo que ela é. E então... Abandoná-la.
Leonard, sempre os anos entre nós.
Sempre os anos. Sempre o amor.
Sempre... As horas.
Leonard, sempre os anos entre nós.
Sempre os anos. Sempre o amor.
Sempre... As horas.
Eu, Álison
domingo, 22 de dezembro de 2013
A loucura me salvou
Tal é a força da escrita: abolir o tempo, suprimir as distâncias, reunir os opostos.
Para Virginia, "escrever é um inferno", e ela não esconde de sua amiga Violet que "às vezes fica horas e horas diante de uma lareira sem fogo, com a cabeça entre as mãos".
De agora em diante, Virginia conhecerá apenas estados paroxísticos, oscilando continuamente entre a exaltação e o desespero. Quando afirma estar feliz, será sempre com "aquela impressão de um meio fio estreito na borda de uma calçada que dá em um precipício". Cada novo livro será um mergulho em águas profundas na qual a romancista não hesitará em colocar sua vida em perigo.
Aquela que escreve em seu Diário "quando escrevo não passo de uma sensibilidade" teme mais do que qualquer pessoa o período que segue a criação propriamente dita.
Entretanto, em 16 de janeiro de 1936, enquanto corrige as provas de Os Anos, encontra-se novamente à beira do precipício aniquilada por um sentimento de fracasso irremediável.
Essa mulher tão perfeitamente feliz num dia e tão desesperadamente deprimida no outro conservou um talismã de sua infância que guardará preciosamente durante toda sua vida. Esse, apesar de não a salvar, irá ajudá-la nos momentos mais difíceis.
Os Stephen têm comum o vício impune da leitura. Têm também, como se fosse um gene transmissível, um certo gosto pela escrita.
Durante seus trinta anos de escrita, Virginia conhecerá somente condições estremas, indo da euforia mais comunicativa ao abatimento mais preocupante. Com A Viagem, entra para a literatura e assina um pacto consigo mesmo que lhe parece proibir qualquer forma de acesso à felicidade.
Em maio de 1895, Julia Princep se retira na ponta dos pés do quadro de cores vibrantes da infância. Para a família Stephen, é um verdadeiro terremoto. Para Virginia, menininha de sensibilidade exacerbada, o fim de toda possibilidade de felicidade.
Virginia, por sua vez, observa. Espectadora de um mundo na qual não consegue tomar parte, vive o início de um sentimento de ausência que não a deixará mais.
A jovem Virginia grava tudo sem conseguir se deixar levar por uma emoção cuja violência a aniquilará.
O que a morte de Julia Stephen revela é uma propensão à instabilidade psíquica com a qual Virginia deverá lidar toda sua vida.
Estar louca, Ou, pior ainda, que os outros a achem louca: esse é o pavor dessa mulher que lutará corajosamente toda sua vida contra sintomas que cada um vai querer ligar a um nome. Histeria. Psicose. Depressão.
Alguns meses depois de seu casamento, Virginia Woolf fica gravemente doente. Sua recusa em alimentar-se e suas dificuldades de conseguir dormir inquietam os próximos. Chamaram o médico que, entre outras recomendações de praxe, prescreve-lhe barbitúrico, um sedativo potente. Alguns dias mais tarde, ela força voluntariamente a dose e quase morre.
Virginia sente-se "acorrentada a um rochedo, coagida à inação, condenada a deixar cada preocupação, cada rancor, irritação ou obsessão atacá-la persistentemente com unhas e dentes".
Seu desespero, contido nos primeiros anos, acaba pouco a pouco por explodir.
Em 1922, anota a contragosto em seu Diário:
É o preço da glória. O início da lenda. Lenda que não quer ver em Virginia outra coisa além de uma mulher melancólica e suicida. Frágil e cortada do mundo. Fantasiosa e instável.
Longe da agitação da capital, a romancista experimenta com sensualidade as delícias do campo e pode se entregar com toda a tranquilidade à sua ocupação preferida. Ali, tudo é ordem, calma e volúpia.
Leonard, por sua vez, que sempre tem uma inclinação ao pessimismo, torna-se simplesmente lúgubre. "As pessoas continuarão a morrer, e assim até a nossa própria morte", confia à sua mulher.
Por que as depressões crônicas dessa mulher, suas repetidas tentativas de suicídio e seus acessos de demência foram retidos em vez da extraordinária coragem que ela demonstrou para conseguir realizar sua obra, tão rica e complexa, apesar de sua "doença sinistra"? Por que ter destacado sua fragilidade, ao passo que é precisamente sua força que é impressionante? Depois de cada crise, que a deixa num estado extremo de deterioração física e psicológica, Virginia Woolf encontra ainda e sempre a força para comprometer-se novamente com uma nova tarefa.Seja em 1913, quando termina seu primeiro romance, apesar de seu estado de saúde que pede internação. Seja em 1918, quando começa Noite e Dia com o único objetivo de manter a cabeça fora d'água entre dois períodos de imersão na demência. Seja em 1930, quando escreve As Ondas e vê novamente surgir os signos indicadores da depressão. Seja em 1936, quando termina Os Anos e que atravessa uma crise de desespero cuja violência lhe lembra o fim esgotante de A Viagem. De cama, emagrecida, pálida, vítima de alucinações, de dores de cabeças assustadoras, Virginia Woolf persiste.
A escrita é a única saída que essa mulher, que se define como "uma melancólica de nascimento", encontrou para salvar-se. Cada livro é uma vitória sobre a doença. Um combate contra as trevas das quais sai sempre vitoriosa, mas raramente aliviada.
Com Os Anos, os sintomas da depressão vêm à tona novamente. "Escrever é um esforço, escrever é o próprio desespero", anota em seu diário sobre "esse livro interminável".
O mesmo medo de não ser capaz de expressar uma emoção que parece ocultar propositalmente a extensão de sua dor.
Como se o desaparecimento de seu amigo tivesse definitivamente quebrado algo dentro dela.
"Como se nos chocássemos contra um muro. Um tal silêncio. Um tal empobrecimento. Quantas coisas ele irradiava".
"Lutamos todos com os nossos cérebros, nossas paixões e todo o resto, e tudo isso para sermos vencidos", anota em seu Diário em um dia de desespero.
O que resta? Em que se agarrar? Tudo não passa de desolação. Mesmo a escrita do Diário não parece mais oferecer consolo. Em 29 de dezembro de 1940, essa constatação lapidar: "Todo desejo de continuar esse Diário me abandona".
Lytton Strachey, Katherine Mansfield, Roger Fry, todos seus melhores amigos se foram. Apenas Virginia, soldadinho valente, continua lutando com as palavras. Um embate que a cada dia lhe parece mais inútil.
Enquanto tem consciência de estar tomada pela doença, tenta, mais uma vez, para mantê-la longe, examinar a loucura sob o ângulo do estudo. Mas, pela primeira vez, essa vontade que tanto pôs à prova e que lhe permitiu que se mantivesse à beira do abismo, não responde mais. Alguma coisa se rompeu. Definitivamente.
Para Virginia, o pesadelo recomeça. As visões. As alucinações. As eternas recomendações que nunca serviram para nada além de isolá-la um pouco mais nesse mundo opaco e frio no qual ela sente que está sendo inexoravelmente enterrada.
"Lutei tanto quanto pude, mas não consigo mais". Ninguém poderá salvar Virginia Woolf. Pela primeira vez, Leonard chegará tarde demais.
Para Virginia, "escrever é um inferno", e ela não esconde de sua amiga Violet que "às vezes fica horas e horas diante de uma lareira sem fogo, com a cabeça entre as mãos".
De agora em diante, Virginia conhecerá apenas estados paroxísticos, oscilando continuamente entre a exaltação e o desespero. Quando afirma estar feliz, será sempre com "aquela impressão de um meio fio estreito na borda de uma calçada que dá em um precipício". Cada novo livro será um mergulho em águas profundas na qual a romancista não hesitará em colocar sua vida em perigo.
Aquela que escreve em seu Diário "quando escrevo não passo de uma sensibilidade" teme mais do que qualquer pessoa o período que segue a criação propriamente dita.
Entretanto, em 16 de janeiro de 1936, enquanto corrige as provas de Os Anos, encontra-se novamente à beira do precipício aniquilada por um sentimento de fracasso irremediável.
Nunca me senti tão infeliz quanto ontem à noite [...]
Essa mulher tão perfeitamente feliz num dia e tão desesperadamente deprimida no outro conservou um talismã de sua infância que guardará preciosamente durante toda sua vida. Esse, apesar de não a salvar, irá ajudá-la nos momentos mais difíceis.
Os Stephen têm comum o vício impune da leitura. Têm também, como se fosse um gene transmissível, um certo gosto pela escrita.
Durante seus trinta anos de escrita, Virginia conhecerá somente condições estremas, indo da euforia mais comunicativa ao abatimento mais preocupante. Com A Viagem, entra para a literatura e assina um pacto consigo mesmo que lhe parece proibir qualquer forma de acesso à felicidade.
Em maio de 1895, Julia Princep se retira na ponta dos pés do quadro de cores vibrantes da infância. Para a família Stephen, é um verdadeiro terremoto. Para Virginia, menininha de sensibilidade exacerbada, o fim de toda possibilidade de felicidade.
Virginia, por sua vez, observa. Espectadora de um mundo na qual não consegue tomar parte, vive o início de um sentimento de ausência que não a deixará mais.
A jovem Virginia grava tudo sem conseguir se deixar levar por uma emoção cuja violência a aniquilará.
O que a morte de Julia Stephen revela é uma propensão à instabilidade psíquica com a qual Virginia deverá lidar toda sua vida.
Estar louca, Ou, pior ainda, que os outros a achem louca: esse é o pavor dessa mulher que lutará corajosamente toda sua vida contra sintomas que cada um vai querer ligar a um nome. Histeria. Psicose. Depressão.
A morte da qual sou perpetuamente consciente [...] se aproxima tão rápido!
Alguns meses depois de seu casamento, Virginia Woolf fica gravemente doente. Sua recusa em alimentar-se e suas dificuldades de conseguir dormir inquietam os próximos. Chamaram o médico que, entre outras recomendações de praxe, prescreve-lhe barbitúrico, um sedativo potente. Alguns dias mais tarde, ela força voluntariamente a dose e quase morre.
Virginia sente-se "acorrentada a um rochedo, coagida à inação, condenada a deixar cada preocupação, cada rancor, irritação ou obsessão atacá-la persistentemente com unhas e dentes".
Seu desespero, contido nos primeiros anos, acaba pouco a pouco por explodir.
Em 1922, anota a contragosto em seu Diário:
O único interesse que as pessoas têm por mim como escritora vem, estou começando a me dar conta, de minha personalidade estranha.
É o preço da glória. O início da lenda. Lenda que não quer ver em Virginia outra coisa além de uma mulher melancólica e suicida. Frágil e cortada do mundo. Fantasiosa e instável.
Longe da agitação da capital, a romancista experimenta com sensualidade as delícias do campo e pode se entregar com toda a tranquilidade à sua ocupação preferida. Ali, tudo é ordem, calma e volúpia.
Leonard, por sua vez, que sempre tem uma inclinação ao pessimismo, torna-se simplesmente lúgubre. "As pessoas continuarão a morrer, e assim até a nossa própria morte", confia à sua mulher.
Por que as depressões crônicas dessa mulher, suas repetidas tentativas de suicídio e seus acessos de demência foram retidos em vez da extraordinária coragem que ela demonstrou para conseguir realizar sua obra, tão rica e complexa, apesar de sua "doença sinistra"? Por que ter destacado sua fragilidade, ao passo que é precisamente sua força que é impressionante? Depois de cada crise, que a deixa num estado extremo de deterioração física e psicológica, Virginia Woolf encontra ainda e sempre a força para comprometer-se novamente com uma nova tarefa.Seja em 1913, quando termina seu primeiro romance, apesar de seu estado de saúde que pede internação. Seja em 1918, quando começa Noite e Dia com o único objetivo de manter a cabeça fora d'água entre dois períodos de imersão na demência. Seja em 1930, quando escreve As Ondas e vê novamente surgir os signos indicadores da depressão. Seja em 1936, quando termina Os Anos e que atravessa uma crise de desespero cuja violência lhe lembra o fim esgotante de A Viagem. De cama, emagrecida, pálida, vítima de alucinações, de dores de cabeças assustadoras, Virginia Woolf persiste.
A escrita é a única saída que essa mulher, que se define como "uma melancólica de nascimento", encontrou para salvar-se. Cada livro é uma vitória sobre a doença. Um combate contra as trevas das quais sai sempre vitoriosa, mas raramente aliviada.
Com Os Anos, os sintomas da depressão vêm à tona novamente. "Escrever é um esforço, escrever é o próprio desespero", anota em seu diário sobre "esse livro interminável".
O mesmo medo de não ser capaz de expressar uma emoção que parece ocultar propositalmente a extensão de sua dor.
Como se o desaparecimento de seu amigo tivesse definitivamente quebrado algo dentro dela.
"Como se nos chocássemos contra um muro. Um tal silêncio. Um tal empobrecimento. Quantas coisas ele irradiava".
"Lutamos todos com os nossos cérebros, nossas paixões e todo o resto, e tudo isso para sermos vencidos", anota em seu Diário em um dia de desespero.
O que resta? Em que se agarrar? Tudo não passa de desolação. Mesmo a escrita do Diário não parece mais oferecer consolo. Em 29 de dezembro de 1940, essa constatação lapidar: "Todo desejo de continuar esse Diário me abandona".
Lytton Strachey, Katherine Mansfield, Roger Fry, todos seus melhores amigos se foram. Apenas Virginia, soldadinho valente, continua lutando com as palavras. Um embate que a cada dia lhe parece mais inútil.
Enquanto tem consciência de estar tomada pela doença, tenta, mais uma vez, para mantê-la longe, examinar a loucura sob o ângulo do estudo. Mas, pela primeira vez, essa vontade que tanto pôs à prova e que lhe permitiu que se mantivesse à beira do abismo, não responde mais. Alguma coisa se rompeu. Definitivamente.
Para Virginia, o pesadelo recomeça. As visões. As alucinações. As eternas recomendações que nunca serviram para nada além de isolá-la um pouco mais nesse mundo opaco e frio no qual ela sente que está sendo inexoravelmente enterrada.
"Lutei tanto quanto pude, mas não consigo mais". Ninguém poderá salvar Virginia Woolf. Pela primeira vez, Leonard chegará tarde demais.
No dia 28 de Março de 1941, após ter um colapso nervoso, Virginia Woolf suicidou-se.
Eu, Álison
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
E enfim estaria bem
Se você estivesse pensando claramente,
perceberia que aquela cidade acabou com sua vida.
Se eu estivesse pensando claramente, não teria mais vida alguma.
Eu, Álison
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Trecho do filme "As Horas"
- Estava trabalhando no jardim. Eu não queria atrapalhá-lo.
- Você me atrapalha quando desaparece!
- Eu não desapareci. Saí para dar uma volta.
- Uma volta? É isso? Só uma volta? Virgínia, vamos voltar para casa.
- Não existe tal obrigação!
- Virgínia, você tem obrigação para com sua insanidade.
- Eu tenho suportado essa prisão. Tenho suportado esse encarceramento. Sou atendida por médicos. Em todos os lugares sou atendida por médicos que me informam sobre meus próprios interesses.
- Eles sabem seus interesses.
- Eles não sabem! Eles não falam pelos meus interesses.
- Virgínia, posso ver que deve ser difícil para uma mulher do seu...
- Do meu o quê?
- Do seu talento!... Ver que não pode ser responsável por si própria.
- Quem seria melhor!?
- Você tem um histórico! Tem um histórico de internações. Nós a trouxemos aqui para salvá-la de um dano irreparável que pretendia fazer a si mesma. Você tentou se matar duas vezes!!! Vivo diariamente com essa ameaça.
- Minha vida foi roubada de mim. Estou vivendo em uma cidade em que não quero viver. Tenho vivido uma vida que não desejo viver.
- Não é você que está falando, Virgínia. É consequência de sua enfermidade.
- É minha voz.
- Não é sua voz.
- É minha voz, só minha!
- Não é, escute...
- Não, é minha voz! Estou morrendo nessa cidade!
-Se estivesse pensando claramente, Virgínia...
- Se eu estivesse pensando claramente... Se eu estivesse pensando claramente, Leonard, lhe diria que luto sozinha, na escuridão, na profunda escuridão, e que somente eu posso saber se eu posse entender meu próprio estado. Você vive com essa ameaça, você diz. Vive com a ameaça da minha extinção. Leonard, eu também vivo com ela. Mesmo ao mais miserável, ao mais baixo paciente é permitida alguma escolha em sua prescrição médica. É o que define sua humanidade. Desejaria, para seu bem Leonard, que pudesse ser feliz nessa quietude... Mas se for uma escolha entre Richmond e a morte... Eu escolho a morte.
[...] Não se pode encontrar a paz evitando a vida, Leonard.
- Você me atrapalha quando desaparece!
- Eu não desapareci. Saí para dar uma volta.
- Uma volta? É isso? Só uma volta? Virgínia, vamos voltar para casa.
- Não existe tal obrigação!
- Virgínia, você tem obrigação para com sua insanidade.
- Eu tenho suportado essa prisão. Tenho suportado esse encarceramento. Sou atendida por médicos. Em todos os lugares sou atendida por médicos que me informam sobre meus próprios interesses.
- Eles sabem seus interesses.
- Eles não sabem! Eles não falam pelos meus interesses.
- Virgínia, posso ver que deve ser difícil para uma mulher do seu...
- Do meu o quê?
- Do seu talento!... Ver que não pode ser responsável por si própria.
- Quem seria melhor!?
- Você tem um histórico! Tem um histórico de internações. Nós a trouxemos aqui para salvá-la de um dano irreparável que pretendia fazer a si mesma. Você tentou se matar duas vezes!!! Vivo diariamente com essa ameaça.
- Minha vida foi roubada de mim. Estou vivendo em uma cidade em que não quero viver. Tenho vivido uma vida que não desejo viver.
- Não é você que está falando, Virgínia. É consequência de sua enfermidade.
- É minha voz.
- Não é sua voz.
- É minha voz, só minha!
- Não é, escute...
- Não, é minha voz! Estou morrendo nessa cidade!
-Se estivesse pensando claramente, Virgínia...
- Se eu estivesse pensando claramente... Se eu estivesse pensando claramente, Leonard, lhe diria que luto sozinha, na escuridão, na profunda escuridão, e que somente eu posso saber se eu posse entender meu próprio estado. Você vive com essa ameaça, você diz. Vive com a ameaça da minha extinção. Leonard, eu também vivo com ela. Mesmo ao mais miserável, ao mais baixo paciente é permitida alguma escolha em sua prescrição médica. É o que define sua humanidade. Desejaria, para seu bem Leonard, que pudesse ser feliz nessa quietude... Mas se for uma escolha entre Richmond e a morte... Eu escolho a morte.
[...] Não se pode encontrar a paz evitando a vida, Leonard.
Eu, Álison
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
As Horas
Encarar a vida pela frente... Sempre. Encarar a vida pela frente, e vê-la como ela é. Por fim, entendê-la e amá-la pelo que ela é. E depois... Abandoná-la...
Sempre os anos entre nós, sempre os anos... Sempre o amor... Sempre a razão... Sempre o tempo... Sempre... As horas.

"A beleza do mundo, que muito em breve perecerá, tem duas margens, uma do riso e outra da angústia, que cortam o coração em duas metades". - Virginia Woolf
Eu, Álison
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Por Virginia Woolf
Querido,
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim, mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V.
No dia 28 de Março de 1941, após ter um colapso nervoso, Virginia Woolf suicidou-se.
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim, mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V.
No dia 28 de Março de 1941, após ter um colapso nervoso, Virginia Woolf suicidou-se.
Eu, Álison
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