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quarta-feira, 25 de julho de 2012

P. I. Tchaikovsky - Continuação

Convidou Tchaikovsky a visitá-la em sua ausência, a examinar os seus livros e a considerar os seus quadros, de sorte que, ao voltar, sentisse ela a atmosfera impregnada da personalidade dele.
Tchaikovsky, porém, que era a alma mais delicada da terra, sabia defender com firmeza os seus direitos. “Perdoe-me, querida amiga, e ria-se da minha esquisitice. As nossas relações, no pé em que estão, constituem a minha maior felicidade e a rocha sobre a qual repousa todo o meu bem estar. Não desejo fazer-lhe a menor alteração”.
Durante quarenta e oito horas “bebeu ela toda a magnífica beleza da melodia, recusando-se a comer ou a beber”.
Possuía-o, de vez em quando, uma fúria quase assassina. “Já sei”, escreveu ele sinistramente, “como um homem, não sendo mau por natureza, pode converter-se num criminoso!”. Voltaram-lhe as antigas crises de nervos – a insônia, a perda de peso, as cãibras cardíacas, os pesadelos.
A ideia de que não valho nada, de que somente o meu trabalho musical me redime dos meus defeitos principia a oprimir-me e torturar-me. A única maneira de subtrair-me a essas dúvidas atormentadoras e a essas autoflagelações consiste em encetar novo labor. Só o meu trabalho pode salvar-me.
“As palavras são inúteis para descrever a emoção que me avassala quando concebo uma nova ideia e esta principia a tomar forma definida”.
Tchaikovsky, porém, confessou ingenuamente que tinha medo aos outros. “Durante toda a minha vida os contatos sociais me fizeram sofrer”. Não sabia definir com exatidão o que havia nos outros que tanta angústia lhe causava, mas o caso é que a sociedade o atormentava. Confessava saber quanto lhe minguara as oportunidades de êxito essa timidez. Mas desistira da luta. “De fato, agora que posso esconder-me em minha toca e ser sempre eu mesmo, visto que os livros e a notação musical são hoje meus únicos companheiros, sinto-me perfeitamente feliz”.
É a única pessoa no mundo que me pode fazer profundamente feliz. E expressou o desejo de toda a sua alma de que jamais se alterasse, jamais terminasse o que quer que inspirasse o seu afeto por ele, “porque uma perda dessa ordem seria, para mim, insuportável”.
Terminava a carta com umas poucas palavras casuais, totalmente destituídas de calor: “Não esqueça, e pense em mim de vez em quando”. O tom dessa carta petrificou-o. “Poderei, porventura, esquecer tudo o que você fez por mim, tudo o que sua amizade significou para mim e para minha música?”
“Estou perturbado demais para escrever com clareza”.
“Isso, porém, aconteceu e toda a minha confiança nas pessoas, toda a minha fé no mundo se extinguiram. Foi-se-me a paz e toda e qualquer felicidade que o destino possa haver-me reservado está empeçonhada para sempre”. Esta última carta nunca teve resposta.
Alguma força irresistível tomara conta dele... Uma ansiedade profunda e inexplicável, um desespero que pedia o esquecimento às distrações, onde quer que fosse...
Tão lindas eram as suas melodias que lhe haviam arrancado lágrimas dos olhos. A Sinfonia Patética foi a última coisa que ele escreveu. Era o testamento em que legava ao mundo a chama do seu gênio e a beleza da sua cor.
Durante quatro dias agonizou e, no quinto, encontrou o repouso. Fim estranho de uma estranha existência. Um gênio a quem o Destino havia dado os sons de um deus e a quem negara as energias de um homem. Quais teriam sido os verdadeiros pensamentos de tão triste e incongruente personalidade?




Eu, Álison

segunda-feira, 23 de julho de 2012

P. I. Tchaikovsky

Não se lhe detinham os olhos nas mulheres nem os ouvidos ouviam ternos murmúrios de amor. Dizia-se que ele tinha medo ao amor, à amizade, a todo e qualquer contato humano. Ele era só porque era grande, como uma estátua colocada sobre um pedestal, que pudesse olhar por cima das cabeças da multidão, mas não pudesse descer para sentir o contato de uma mão humana. Pode uma estátua inspirar veneração, mas não pode exigir amor.
Algo melancólico é verdade, mas a própria melancolia lhe quadrava ao melancólico temperamento.
Ao sabor das ondas, no mar dos sons, sem encontrar à vista a seguridade de um porto.
Tchaikovsky, não raro, sentia possuí-lo uma sensação esquisita quando caminhava pelas ruas ou regia no Conservatório. Dir-se-ia que a cabeça estivesse prestes a cair-lhe dos ombros. Era um caso mau de nervos. Cãibras cardíacas, dores de cabeça e crises de indigestão.
No Conservatório, era tido por um enigma. Não obstante, mostrava-se sempre um gentil homem, embora frio, aristocrático e distante. Contudo, continuava a ser, como sempre, infeliz. Dizia-se mal dele, que era esquisito, que era incapaz de amar normalmente uma mulher.
Far-lhe-ia bem o casamento se lograsse encontrar a mulher que lhe conviesse. E enquanto Tchaikovsky se entretinha em procurar essa mulher, a mulher o encontrou. Era uma criaturinha moça, atraente, histérica e agressiva. Peter cedera, unicamente por fraqueza, avisando-a de que a não poderia amar, de que era pobre, insociável, irritável por natureza e intratável. Casaram-se e, por um momento, Tchaikovsky foi feliz.
“Sem embargo, olho para tudo isso com a mais profunda repugnância”. O grito medonho continuava a espancar-lhe o ouvido interior: “Sou um anormal!”. Precipitou-se para fora do apartamento e pôs-se a correr cegamente pelas ruas escuras da cidade. Quando deu por si estava à beira do rio Moscóvia. Penetrou as águas geladas, até a cintura, e retornou depois, cambaleante, a casa, anelando por apanhar uma pneumonia e morrer. “Ele acaba de passar por uma tensão muito grande. Qualquer coisa o abalou terrivelmente”. Mandaram-no para um sanatório. “Com a ajuda de Deus você recobrará a saúde... A música volverá a interessá-lo e a encher a sua vida”.
Mas Peter é que a havia escrito e, portanto, não podia ser senão uma melodia vinda de Deus.
Quando um homem põe toda a alma num trabalho espera que sejam reconhecidos os seus esforços. ”Não há nela uma única frase que eu não tenha sentido profundamente: todas as suas notas são outros tantos ecos da parte mais sincera da minha natureza”.
À medida que o nosso desespero se torna cada vez mais forte, buscamos fugir à realidade e mergulhamos na ilusão dos sonhos... A pouco e pouco os nossos sonhos senhoreiam-se da alma. A vida de Tchaikovsky era uma alternância de fantasia e realidade, de ventura e angústia. Estados exultantes de espírito quando compunha a sua música, ideias de suicídio quando obrigado a enfrentar o mundo.
Não há de o homem, contudo, enrodilhar-se para sempre aos próprios sofrimentos. Momentos há em que é bom fugirmos de nós mesmos, esquecermos as tristezas passadas e as esperanças futuras, e vogarmos, impessoalmente, fora do tempo e do espaço, sentindo, em vez de emoções definidas, uma sucessão de caprichos arabescos, essas imagens intangíveis que nos perpassam no espírito.
"Se não podes encontrar alegria dentro em ti mesmo, procura-a nos outros”. Vê – vê como ele sabe aproveitar, da melhor maneira possível, seu tempo. Se o prazer não é dado a Tchaikovsky, fuja ele aos sombrios pensamentos e observe como os outros se entregam ao prazer. “Vê como são alegres os demais! E quanta ventura existe em ser-se guiado por sentimentos tão simples”. A gente só pode sobrepujar a tristeza do próprio destino, regozijando-se das alheias alegrias.





Eu, Álison

sábado, 30 de junho de 2012

J. S. Bach

Os maiores obstáculos contra o progresso de um homem não são, às vezes, forças impessoais, senão humanas, pensava Bach.
Meus bons amigos, vocês não compreendem esse Bach. É um gênio.
Meu Deus! Existe apenas um grande Bach!
Assim, de feito, é que era: mas que poderia fazer um pobre diabo de aluno com um louco que improvisava em claves completamente estranhas ao ouvido humano e que saltava de uma clave para outra, displicente, sem a menor pausa na torrente de sua melodia?
Família de estranhos talentos e nervos sensitivos, esses Bachs. Especialmente papai Sebastian. Quando alguém sente a música com profundeza, com demasiada profundeza, força é que se mostre irritadiço em relação a esses organistas profissionais, cujas notas desajeitadas são outras tantas punhaladas no coração da gente.
E isso, ainda por cima, dava à gente a reputação de ser um velho maníaco intratável. Velho maníaco intratável!
Que poderiam esses parvos compreender no tocante a superioridade da visão alheia?
O segredo da minha harmonia? Só eu o conheço.
A ciência da minha arte. A arte da minha ciência. A harmonia das estrelas no céu, o anseio de fraternidade no coração do homem. Tal é o segredo da minha música.
Das profundidades do abismo chamei por Ti, Senhor. O derradeiro brado. Depois, o silêncio.
Simples como o canto dos pássaros ao sol que nasce ou que morre.
Agora, após um dia tranquilo, a tranquilidade da noite.
Isso foi tudo.
É possível que vários séculos se passem ainda antes que o mundo se advirta da existência dele.





 Eu, Álison